21:04HORÓSCOPO

por Zé da Silva

Capricórnio

Olhou o chão de pedras cinzas e disformes. Estava no meio de uma reunião e alguém relatava uma experiência de vida. Melhor, de dores de uma vida. Ele ouvia, mas o olhar rastreava as junções das pedras, o rosto amparado pelas duas mãos, cotovelos enfiados nas coxas. A voz falou em tentativa de suicídio, prisão, carros destruídos em postes, sumiços, desespero. Mas saía da boca de alguém que podia contar isso porque estava bem. Foi aí que ele a viu. A borboleta pequena, abria e fechava as asas parecendo estar sem força para voar dali. Do lado de fora da sala a noite cobria tudo e os carros faziam muito barulho na avenida em frente. Ela parecia cansada. De repente mais pessoas olhavam para ela, talvez numa hipnose momentânea, porque era bonita, desenhos e cores discretas, mas bonita. Quantos minutos todos ficaram assim? Uma eternidade. Quem falava demonstrou muito otimismo no que pressentia pela frente. Foi então que um daqueles que ouvia e olhava a borboleta levantou da cadeira, pegou-a com toda delicadeza e solto-a no fundo do quintal, onde havia muito verde, muitas árvores. As pedras cinzas continuaram pedras cinzas. A noite, noite. Mas a cena ficou guardada em alguns corações.

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