6:52A Lacata não entende nada de Páscoa

Ilustração: Theo Szczepanski

por Rogério Pereira

A missão era das mais complicadas: encontrar um ovo de Páscoa da Monster High — aquela bonequinha esquelética, despenteada, desengonçada, feia e perua. Minha filha esperava ansiosa pela chegada de uma Monster enclausurada no chocolate ao leite. Fracassei. Após vagar — zumbi estabanado — por corredores atulhados de gente que acredita no coelhinho da Páscoa, uma vendedora destruiu qualquer esperança: “O senhor não vai encontrar em lugar algum do mundo. Acabou tudo”. Estava em Campo Largo. É quase na beirada do fim do mundo. O ovo da Monster High é da Lacta. Portanto, a culpa pelo fracasso não é minha. É da Lacta. A Lacta não entende nada de Páscoa.

Os três filhos pulávamos em volta da mãe. Era sempre depois da missa. Rezávamos com pressa, mastigávamos a hóstia sem remorso. Engolíamos trechos inteiros de orações. Fugíamos do confessionário como o diabo foge da cruz. Ignorávamos que Jesus reencarnara para nos salvar, filhos ingratos, maltrapilhos e famintos. As pernas destrambelhavam em direção a casa. A mãe chegava bem depois. Encontrava-nos à porta — três vira-latas na iminência de um osso. Ela fingia nos ignorar. Ia ao quarto e, nas pontas dos pés, retirava o tão sonhado tesouro, escondido numa caixa de sapatos sobre o velho guarda-roupa. Dirigia-se a passos lentos até os filhos espalhados pelo terreiro. O pai estava no boteco. Depois de Deus, a cachaça. Para o pai, o sangue de Cristo vinha da cana-de-açúcar. Já sabíamos o que nos esperava. Todo ano era igual. Fechem os olhos. Fechávamos, imaginando um ovo gigantesco de Páscoa, embalado em papel colorido, estufado de surpresas, que devoraríamos com dentadas volumosas. Feliz Páscoa. A caixinha azul (meu irmão me confidenciara a cor) reluzia entre nossas seis mãos de pedintes. Nessa época, a mãe ainda desconhecia a mania do Sílvio Santos de atirar notas de dinheiro à patuleia.

Começava o nosso dilema anual: como dividir uma caixa de Bis entre três irmãos. A caixa de Bis vem com vinte tabletes de wafer lambuzados em chocolate. Já sabíamos dividir. As aulas no Ângelo Trevisan tinham uma missão bem definida: salvar-nos de algo que desconhecíamos. Um dos irmãos sempre ficaria com um Bis a menos. Ou dois irmãos com um Bis a mais. Lógica simples. Dependia muito de que lado o coelho estava. Resolvemos fazer um rodízio. A cada ano um ficaria no prejuízo. Nunca deu certo. A irmã — caçula e mulher — sempre ficou com sete Bis. Eu e o irmão, resolvíamos nossa matemática particular à base de pouca conversa. Um dia, a irmã morreu de repente. Tinha 27 anos. Já não dividíamos mais caixinhas de Bis. E as aulas do Ângelo Trevisan não faziam a menor diferença. Na hora da morte, dividir ou multiplicar serve apenas para ratear entre os familiares o custo com o caixão e o túmulo.

Tínhamos também a opção de cada irmão devorar seis Bis. Os dois restantes, presentearíamos a mãe e o pai. Pouco provável. O pai não merecia, pois a cachaça sempre fora mais importante que os filhos; e a mãe nunca gostou de chocolate. As aulas de matemática não resolviam o problema afetivo da nossa Páscoa.

Quando o câncer decidiu saborear o pescoço da mãe, os médicos cavaram uma jejunostomia — um buraco com uma mangueirinha enfiada na barriga magra, branca e flácida. Agora, leite e um complemento hipercalórico são as refeições da mãe. Nada mais. Tudo gotejando pelo buraco na barriga. A mãe lembra uma casa com goteira. Uma goteira sem solução. O sabor chocolate está proibido. A mãe não deixa que o líquido viscoso seja marrom. Tem de ser de baunilha. Morango e banana também não são bem-vindos. Para enganar a mãe — quando não encontro o complemento de baunilha —, compro o de banana e raspo a lata com a chave do carro sobre as letras gordas que indicam o sabor. A mãe lê muito mal, mas banana é bastante fácil de decifrar. Não posso fazer o mesmo com as latas de chocolate. A cor descortinaria minha trapaça. É irônico um daltônico ser desmascarado por uma cor.

Minha filha ficou sem o ovo da Monster High. Também não comprei o do Homem-Aranha para meu filho. Optei por uma caixa de Bis. Ao recebê-la, eles me olharam meio desanimados. Contei uma história, disse que era uma espécie de herança. Não entenderam nada. Saíram correndo pelo parquinho atrás de uma brincadeira. É a primeira Páscoa que ganham do pai apenas uma caixa de Bis. Acharam pouco, quase nada, comparada aos ovos coloridos e recheados, presentes de tios, primos e avó. No entanto, meus filhos têm uma vantagem: dividir uma caixa de Bis em dois é uma conta bastante fácil de resolver. Às vezes, a Lacta acerta.

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