7:55O grito de quem jamais ergueu a voz

por Ivan Schmidt

A renúncia do papa Bento 16, segundo escreveu o correspondente do El País em Roma, Pablo Ordaz, “não pode ser interpretada como um ato de rendição”. Bem mais que isso, sugeriu, a renúncia deve ser interpretada “como a única possibilidade de gritar de um homem que jamais levantou a voz”.

O jornalista conta, ainda, que ao regressar de sua viagem a Cuba e México, em março do ano passado, Ratzinger recebeu um informe elaborado por um trio de cardeais octogenários sobre o furto de documentos secretos, que abalou o Vaticano e somente amainou com a detenção do mordomo Paolo Gabrielle, responsabilizado pelo ato delituoso que especialistas em Vaticano acham difícil aceitar que tenha sido cometido por uma única pessoa.

O informe não tinha o propósito de encerrar o caso, mas consistia numa investigação repleta de nomes e dados sobre os protagonistas das guerras pelo poder que há muitos anos são travadas no Vaticano, das quais o chamado Vatileaks “não era mais que sua escandalosa consequência”, segundo Ordaz.

Na visão desse farejador das ocorrências intramuros na vetusta massa de edifícios que compõem o complexo de São Pedro, “aos anjos caídos pode-se combater com orações e bons exemplos, mas contra os príncipes da Igreja é mais aconselhável uma espada de aço temperado e um braço capaz de empunhá-la”. Bento 16 já não tinha essa força, escreveu, acrescentando que o papa, homem de temperamento tímido e incapaz da confrontação direta, porém profundo conhecedor das intrigas vaticanistas, amadureceu a decisão de marchar.

Citando um diplomata acreditado na Santa Sé, mas mantendo seu anonimato, Pablo Ordaz diz que até nas cafeterias de Borgo Pio, o bairro de ruas estreitas contíguo ao Vaticano, se desenha a figura do papa como “vítima das lutas pelo poder na Igreja”, e que não é de hoje que se culpa o pontífice pelo desgoverno da Igreja. Os mais cáusticos (ainda segundo o diplomata) atribuem esse problema “à falta de caráter de Ratzinger e sua equivocada maneira de escolher os colaboradores”.

Ordaz considera extremamente cruel a referência quando atribuída a um papa, assinalando que se é assim bem se poderia pensar que com a renúncia, Joseph Ratzinger executou uma vingança perfeita: “Ele se vai, mas com ele caem todos os que minaram o pontificado e tornaram ingovernável o Vaticano”.

A renúncia do papa (a última havia sido há 600 anos), além de desnudar a falta de vigor espiritual do responsável pelo timão da barca de Pedro, na avaliação de Ordaz, “pode conduzir também ao desmonte do organograma de poder cada vez mais distanciado das necessidades do catolicismo, mas que segue satisfazendo a voracidade da Cúria”. O quadro descrito pelo correspondente é simplesmente deplorável: “Cardeais se enfrentando entre si, instituições religiosas em choque pela obtenção de privilégios e um secretário de Estado, Tarcísio Bertone, há muito tempo sem a confiança de um papa que para evitar a pedra de escândalo da substituição, decidiu substituir-se a si próprio”.

Outro aspecto repugnante da crônica cinzenta do Vaticano, toda ela pontilhada por traições e traidores, os “corvos” na concepção de Pablo Ordaz, derivou da nomeação do financista Ettore Gotti Tedeschi, escolha pessoal de Ratzinger, em setembro de 2009. Membro da Opus Dei e representante do Santander na Itália desde 1992, Ettore passou a responder pela presidência do Instituto das Obras da Religião (IOR), o banco do Vaticano propriamente dito.

Na época da nomeação, a imprensa cogitou que o gesto de Bento supunha um verdadeiro golpe de autoridade pessoal, o último intento de ordenar as finanças da Santa Sé e lançar um canhão de luz sobre o que por definição sempre permaneceu em trevas. Não é demais lembrar os escândalos do citado banco nos anos 70 e 80 do século passado, culminando com os assassinatos de Roberto Calvi, responsável pela quebra do Banco Ambrosiano, e do banqueiro mafioso Michele Sindona, ambos pertencentes à loja maçonica P2.

Três anos depois de assumir, Ettore redigiu um informe confidencial revelando tudo o que descobrira nos meses anteriores. Contas secretas escondiam dinheiro sujo de políticos, intermediários, empresários e altos funcionários do Estado. E não apenas isso, escreveu Ordaz. O capo de todos os capos da Cosa Nostra siciliana, Matteo Messina Genaro, valendo-se de laranjas acoitou sua imensa fortuna sob os bons augúrios do IOR. A partir de então, Ettore começou a temer pela própria vida e com a detenção do mordomo Paolo Gabrielle pela publicidade dada a segredos do Vaticano, foi também destituído de suas funções.

“A operação de derrubada do amigo do papa”, revelou Ordaz, “levada a cabo pelos conselheiros do banco com respaldo do secretário de Estado, monsenhor Bertone, incluía um documento duríssimo que o demolia moral e profissionalmente, dando a entender que estivera envolvido no furto de documentos dos próprios aposentos papais”. O que se pretendia, então, segundo especialistas, não era simplesmente descartar um amigo de Bento 16, mas destruí-lo.

O mordomo foi indultado por Bento 16 e do informe de Ettore Gotti não se obteve o menor esclarecimento. Quando os jornalistas insistiram em discutir o assunto, uma nota lacônica determinou que ficassem em silêncio. Ordaz conclui que Paoletto e Ettore são apenas personagens pitorescos de uma trama muito mais abjeta que a percebida por Bento 16 na residência de verão ao ler o informe dos cardeais.

E dá seu parecer final: “Esse é também o Vaticano que abandonou Ratzinger. Uma estrutura de poder antiquada, ilhada pelos altos muros da soberba dos milhões de católicos de todo o mundo, a ponto de tornar-se incapaz de ouvir durante décadas, por exemplo, o clamor contra a pederastia e o pranto das vítimas, agindo de forma infame na proteção dos culpados”.

O correspondente brasileiro do importante diário espanhol, Juan Arias, que durante muitos anos ocupou o posto hoje confiado a Pablo Ordaz, tornando-se igualmente profundo conhecedor das tramas vaticanas, vaticinou que nas circunstâncias em que ocorreu e que aos poucos estão sendo aclaradas pela mídia internacional, a renúncia do papa poderá trazer conseqüências impensáveis sobre a Igreja. “Papas mais enfermos que ele morreram no exercício do pontificado sem renunciar à missão considerada por João Paulo 2 um dever intransferível do sucessor de Pedro”, escreveu.

Desde Celestino 5, que abdicou em 1296 e que, na verdade, era um simples monge obrigado a aceitar o papado, embora tivesse declarado seu despreparo para o ofício, Bento 16 é o primeiro papa a renunciar em condições normais, digamos. O Direito Canônico, segundo Arias, prevê que um papa deixe suas funções em pleno gozo de suas faculdades mentais e torne público o ato da renúncia. E assim se fez.

Quando a Igreja protagoniza um gesto de ruptura histórica como esse que Bento 16 acaba de anunciar urbi et orbe, poucos duvidam que o mesmo poderá desencadear pelo efeito dominó, uma série de imprevistos iniciada pelo problema da própria sucessão, totalmente diferente das anteriores. Arias lembra que o próximo conclave, o encontro fechado dos cardeais na Capela Sistina para a eleição do novo papa, pela primeira vez na história será acompanhado pela pessoa que um dos integrantes do colégio cardinalício deverá suceder.

Arias acenou com a probabilidade de Bento 16, mesmo não mais sendo papa, exercer fortíssima influência na escolha do sucessor. “Para o bem ou para o mal”, arriscou-se a acrescentar, numa suposição que nem os mais argutos ficcionistas tiveram a capacidade de conceber.

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