10:08O encontro de Jerry Adriani com Jerri Adriani no Torto

Jair Alves de Souza encontrou Jerri Adriani ontem à noite no bar O Torto, em Curitiba. Jerri Adriani mostrou a carteira de identidade para provar ao Jair que é Jerri Adriani, nascido em Curitiba. Jair Alves de Souza abriu um sorriso, fez foto abraçado com o fã, mostrou para os fotógrafos a identificação deste e continuou sendo paparicado. Jair Alves de Souza é Jerry Adriani, um ídolo da música brasileira que surgiu antes da Jovem Guarda e, aos 66 anos completados no dia 29 de janeiro, se mantém à tona no panorama musical brasileiro porque, como ele mesmo disse ontem, sempre faz questão de expressar um “psiu, olhe eu aqui”, apontando os dois indicadores para o próprio corpo. E gogó não lhe falta, além da pinta de galã, mantido no rosto liso, no cabelo pintado – e apesar dos quilinhos a mais que fazem a camisa denunciar uma barriguinha respeitável.

Ele diz que não precisou descobrir que tinha boa voz, porque nasceu cantando. Fala isso e solta a voz em agudo olhando para o teto do bar para, em seguida, revelar que, se não fosse cantor popular, tinha tudo para ser lírico. Ele nasceu no Braz, bairro italiano da Zona Leste de São Paulo, onde morou até explodir como cantor de música… italiana – que fazia grande sucesso no Brasil antes da invasão inglesa. Ficou conhecido como “O Italianinho”, mas essa não era uma invenção de marketing. A família da sua mãe é italiana. O Adriani vem daí. Era para ser Adriano, mas, ouvido bom, ele disse que não soava bem. E o Jerry?

Nas paredes do bar há reproduções de capas de vários discos do cantor. Foi a primeira coisa que viu ao entrar. Por isso abriu um sorriso. Gravou mais de 500 músicas. Não tem ideia de quantos discos vendeu. Mas lembra que começou a cantar no clube da General Motors, em São Caetano do Sul, onde estudava. Ali foi incentivado a fazer um teste na Radio Nacional. Passou cantando um samba canção de Francisco Egydio pois achava que sua voz condizia mais com isso, apesar de ter sentido vontade de cantar uma do Miltinho, que ele gostava muito. “No meio da música dei uma Orlandosilvada”, recorda. Quando chegou em casa, a mãe, que era fã do “Cantor das Multidões”, reclamou. Ele não tinha nada que imitar o ídolo dela. Na saída da rádio ele viu uma fila enorme de gente. Perguntou o que era. Todos ali iam ao programa de Antonio Aguilar, famoso precursor da onda de rock’n roll na capital. Acho que ali estava a mina. Dali a formar sua banda “Os Rebeldes” e gravar música no disco do The Clevers, que depois se transformou nos Incríveis, foi um pulo. Elvis Presley, que já conhecia, mas não era fanático, entrou de vez em sua vida pois prestou toda a atenção merecida. Então ele canta um rock do Rei e não precisa explicar o por quê do Jerry.

Para quem tentar colocar rótulos em artistas, pode-se dizer que ele aceita quase todos, pois é, antes de tudo, cantor. De boleros, de baladas, de músicas religiosas…

Houve um tempo em que ele chamava as menininhas para dar autógrafo, como lembra fazendo biquinhos e soltando beijinhos no ar. Hoje é conhecido em qualquer biboca onde aparecer no Brasil inteiro e agradece a Deus por isso. Foi moldado para encarar a fama e também para segurar a onda quando esta passou. É possível que isso venha de toda sua formação de menino de bairro, daí ele encarar com poderosas dentadas o famoso bolinho de carne, só que de dentro do balcão do bar, uma cortesia que Arlindo Ventura, o Magrão, que o trouxe para o show de hoje à noite na Quadra Cultural, cujo palco estava sendo erguido naquela esquina.

Onde estarão os playboys das jaquetas de couro
O os nosso sídolos todos de tempos atrás
E hoje as antigas turminhas se chamam patotas
De suas velhas lambretas fizeram motocas
As coisas todas mudaram desde os anos sessenta
O auge do rock’n roll

O nome da música da primeira estrofe acima é “No Auge do Rock’n Roll”. Ao ouvir a primeira frase, escrita num papel que o signatário levou no bolso, Jerry Adriani interrompeu, virou-se para o lado e disse para o maestro Waltel Blanco, que ouvia a conversa: “Que coisa maluca! Eu tenho trocentas músicas e ele me traz exatamente esta cujo arranjo você fez, Waltel!”

Falou então em sincronicidade da vida e das coisas que valem a pena. Jerry Adriani diz que essa letra, que falava da saudade dos anos 60, pode sim, ser adaptada infinitamente, porque tudo muda muito rapidamente, como agora na era da internet, que ele gosta, mas diz que para os artistas é preciso ser feito algo que, de certa forma, recompense o trabalho. Ele diz que ouve pouco rádio, porque são poucas as emissoras que divulgam música de qualidade. Mas não faz crítica ao que se ouve nas FMs da vida. Só lembra que antes se fazia um disco onde se tocava 10 músicas e agora se faz uma música que martela sem parar até esgotar.

Ele faz shows. Quando entrou, na pequena tela da tv pendurada no alto de uma das paredes do bar o DVD de um show seu ao vivo estava passando. Uma das convidadas era Fernanda Takai. Ela e os outros estavam ali para reverenciar o ídolo. Ali, no bar, que é todo uma homenagem ao gênio Garrincha, ele se encantou, abraçou e beijou as duas filhas do Mané que ali estavam e vieram do Rio de Janeiro para assistir ao show. Jerry Adriani é sempre sorriso e emoção à flor da pele.

Quase chorou ao lembrar do amigo Antonio Marcos, que foi embora muito cedo por causa da dependência de álcool, como aconteceu com Garrincha. Ele aproveita para falar sobre a ideia que teve ali mesmo, no reencontro com Waltel Blanco, para que um Centro de Música seja feito e que o maestro o conduza. É o caminho, diz, porque, faz analogia, “a música dá muito mais barato que qualquer droga”. Lembra então que passou longe do problema durante sua vida. Por ser entusiasta do que faz, relembra, teve época que muita gente pensou que se drogava – e ele não podia contar quantas vezes recusou baseados e outras coisas nos bastidores dos shows e fora dele.

Chega um copo, dos grandes, cheios de café. “Esse é o meu vício”, diz. “E olha que não fumo!”. Os dentes perfeitos e brancos confirmam. Ele toma um longo gole e diz: “Descobri cedo que sou maluco de nascença”. Aí solta um sorriso que encanta duas fãs, maduras na idade, que estavam observando num canto do bar e que depois ganharam autógrafos, abraços e beijos. O poeta Zeca Correa Leite diz que a irmã, Sonia, de Sorocaba, sempre quis casar com ele. Ganhou foto ao lado do cantor e autógrafo que vai para o interior de São Paulo. Outra Sonia, Maschke, curitibana, que tinha foto de corpo inteiro do ídolo colada na parte de dentro do guarda-roupa e que, confessa, era perdidamente apaixonada, também ganha o carinho dele em forma de foto em preto e branco que o artista tira de um bloco que estava  dentro de uma bolsa.

Ele fala então do disco lançado no ano passado, que é de músicas religiosas, católicas, mas apenas um trabalho, como explica, por conta da Jornada Mundial da Juventude que acontece em junho com a presença do novo Papa. Tem música de Roberto Carlos e também uma que fala sobre o problema das drogas, que está devastando a vida de muitos jovens. “Todos nós precisamos fazer alguma coisa para mostrar a maravilha que é viver na realidade”.

A dele, Jair Alves de Sousa, pode ser resumida por Jerri Adriani, o curitibano que ganhou esse nome porque o pai era fã do cantor. Ele nunca tinha visto ao vivo Jerry Adriani. Depois do encontro, confessou: “Já ouvi muita gozação sobre meu nome, mas agora tive certeza de que tenho muito do que me orgulhar”.

5 ideias sobre “O encontro de Jerry Adriani com Jerri Adriani no Torto

  1. Bitte

    Zé Beto:
    Quero fazer uma denúncia.
    O Zeca Correa Leite estava lá apenas na condição de admirador.
    Porque fã, mesmo, ele é do Agnaldo Rayol.
    Essa mesma irmã dele, a Sônia, deu a maior branca nele porque, nos anos 60, ele gastou um filme inteiro da Kodak dela, fazendo fotos da grade e do muro da casa do Agnaldo.
    Depois, além de fã ele ficou amigo do Agnaldo e até foi na casa do cantor – acho que aquela mesma que ele fotografou.
    Então, o Zeca foi lá no Torto só prá dar uma abraço no Jerry. Ele é fã, mesmo, é do Agnaldo.
    Tá denunciado.
    Um abração a todos,

    Bitte

  2. OGARITO LINHARES

    ESTE TEXTO É UMA BELA HOMENAGEM AO CANTOR ,QUE TODOS NÓS NASCIDOS POR VOLTA DE 56 , SOMOS FÃNS , MAS É TAMBÉM UMA DEMONSTRAÇÃO DO SEU TALENTO COMO ESCRITOR

    UM ABRAÇO

  3. Parreiras Rodrigues

    Acabei de rever Jerry – olha a intimidade. Dois anos passados, vi ele se apresentando com Os Incriveis lá no Positivo.

    É um dos meus ídolos de meio século atrás.

    Tô cuma saudade danada do Carlos Gonzaga.

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