22:13Fluck, Fluc, Fluk, Fluque

Ilustração deTheo Szczepanski

por Rogério Pereira

Lembro que era noite. Éramos crianças. Eu e o irmão, na parte de trás da velha kombi azul. O pai, ao volante. Segurávamos dois cachorros: Princesa e Branquinho. A cadela era uma ironia — princesa sem perspectiva alguma de assumir o trono ou de encontrar um mal-ajambrado príncipe. Branquinho carregava no nome a obviedade da cor, quase sempre profanada pelo permanente pó do terreiro. Eles precisavam ir embora. Morrer de fome longe de nós. A casa era insuficiente para dois adultos, três crianças e dois cães. Nunca os consideramos animais de estimação. A palavra estimação não fazia nenhum sentido entre nós. Simplesmente, apareceram. Ficaram pelo terreiro implorando carinho e comida. Carinho estava ao nosso alcance. Quando minguaram as sobras do almoço e do jantar, chegara a hora de nos livrarmos da dupla maltrapilha. Não havia espaço para tantos miseráveis.

Minha filha está abraçada ao maltês de quatro meses. O pequeno animal tem um lacinho azul no alto da cabeça. Parece feliz com a nova dona. É uma bola branca de pelos. Os olhos quase invisíveis na cara reduzida. No pet shop, além do cachorro, fui convencido a comprar caminha, pipidog, uma bolinha amarela de borracha, um cobertor macio, ração, potes para água e comida. Só ração de boa qualidade e água, recomendou o vendedor. Estou proibido de alimentá-lo com restos de comida. Preciso vaciná-lo, dar vermífugo, banho e tosa toda semana. Não podemos estressá-lo e educá-lo a fazer xixi e cocô sempre no mesmo local. Ouço tudo com muita atenção. Se cuidar bem (e tiver sorte), Fluck viverá cerca de quinze anos. Quando ele morrer, minha filha estará deixando a universidade. Meu filho, escolhendo um curso para encarar a vida. Ele deseja construir torres. Só ainda não sabe muito bem de que tipo. Ela será professora de crianças pequenas.

O pai levou a kombi para um lugar bem longe de casa. Atravessamos a noite em silêncio. Entre nós e a escuridão, apenas o barulho do motor. Segurávamos firmes Princesa e Branquinho em nosso trem de somente um vagão. A Sibéria era um matagal na noite sem lua. Após quase uma hora de viagem, paramos a kombi, que pertencia ao dono da floricultura onde morávamos. O pai arrastou os cachorros para fora. Deixou-os à beira da estrada de terra. Ligou o motor. Fomos embora. O pelo sujo de Branquinho era insuficiente para iluminar a noite.

Todo maltês é branco. Fluque é maltês. Portanto, Fluc é branco. A minha ignorância canina diminui a cada palavra do veterinário. Todo cão de um daltônico deveria ser branco ou preto. Princesa era cinza: uma mescla desarmônica de branco e preto. Eles não latiram quando foram abandonados no meio do mato. Fluk tem pouco mais de dois quilos e late pouco. Está se adaptando à nova casa. Ainda não desconfia de que já é dono de tudo.

Tive apenas um animal de estimação: uma galinha. Na roça, criávamos porcos e galinhas. Branquinha teve vida boa. Nunca tentamos levá-la para a panela. Ela engordou muitíssimo. Era uma bola branca de penas. Vivia solta pelo terreiro, ciscando e atazanando os porcos. Eu tinha cinco anos. Um dia, um caminhão cruzou a estrada ao lado do açude. O caminhão esmagou Branquinha. Ainda não sabia que era daltônico, mas quando a encontramos, era uma bola vermelha de sangue, penas e poeira.

Alguns dias depois, Branquinho reapareceu em casa. Mancava da pata direita. O pelo branco deixara de ser branco. Estava craquento. Decidimos abrigá-lo novamente. Havia sobrevivido ao nosso improvisado campo de concentração. Ficou ali pelo terreiro, sempre à espera de uma migalha. Numa manhã de inverno, daqueles de congelar a água na gamela, encontramos Branquinho esticado no terreiro. Não sabemos se morreu de frio ou de fome. Ou de velho. Enterramos Branquinho atrás de casa. Ao lado da patente de madeira. O pai não nos deixou improvisar uma cruz. Mas não conseguiu me impedir de rezar em silêncio um Pai-Nosso. Não há oração capaz de destruir a culpa.

Antes de sair do pet shop, agendei banho e tosa para o próximo sábado. Cachorro de pelo liso e branco requer mais cuidados. O ideal é trazê-lo aqui toda semana. O tosador talvez tenha razão. Quando segurei Fluck entre os dedos, não resisti e afundei o rosto em suas costelas magras. Estava limpo, cheiroso e amigável. Levei-o até o carro. Meus dois filhos o esperavam no banco de trás. Coloquei-o entre ambos. Felizes, afagaram a bola branca de pelos. Retornei para buscar a carteira de vacinação. O veterinário já havia decidido pela grafia do nome: Fluck.

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