16:50HORÓSCOPO

por Zé da Silva

Câncer

A primeira xícara rachada ele viu num bar. Era o primeiro passeio com o pai. Aeroporto. Avião que sobe, avião que desce. Nariz colado no vidro. Nem sonhava em um dia entrar naquele corpo metálico dotado de asas. Era domingo. Na saída um cafezinho. Quer com leite? Ele queria puro. Estava quente. A xícara tinha um faixa azul perto da borda. Ele assoprou. Como sua mãe ensinou. Tomou de um gole só. A pele descolou no céu da boca. Ele fingiu ser machão. Tinha sete anos. Foi aí que viu. Aquela linha marrom percorrendo de cima abaixo todo um lado da xícara. Teve nojo. Não sabe por quê. Assim como até hoje não sabe porque espatifou-a no chão usando toda a força que tinha para o arremesso. O pai fechou a cara. Pagou pelo prejuízo. Quase não sobra dinheiro para as passagens dos dois ônibus que os levaram de volta para a meia-água no fundo do quintal. Ele cresceu quebrando xícaras, copos com defeitos, pratos, etc. Sempre da mesma maneira. Talvez para ter certeza de que não mais seriam usados. Questão de higiene, começou a justificar já adulto. Mas um dia, casado, chegou em casa e estranhou algo. O que sentiu era como se estivesse no ar. A mulher, então, lhe falou. Apareceu uma rachadura na parede do quarto. Ele foi ver. A cicatriz era como aquela da primeira xícara. Tinha o mesmo traçado. Ele se arremessou contra ela. De cabeça. Chamaram vizinhos, polícia, ambulância. Ficou internado por um bom tempo. Saiu. Nunca mais quebrou nada. Na testa, uma cicatriz. Igualzinha.

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