9:31Almir Pernambuquinho

por Anélio Barreto

Há 40 anos, Almir Pernambuquinho, jogador violento, era morto ao defender gays

Em uma disputa contra o Milan, no Maracanã, pelo Mundial de Clubes, um dos assistentes do técnico Lula, do Santos, perguntou a Almir Pernambuquinho se ele queria tomar uma bola (dexamil).

“Por que não iria querer? O bicho era de 2.000 cruzeiros, o que valia um fusca zero. Disse: me dá uma aí. Eu fui um marginal do futebol.”

Assim Almir Morais Albuquerque iniciou seu depoimento gravado para a Biblioteca Esportiva Placar, da Editora Abril, transcrito no livro “Eu e o Futebol”. No próximo dia 6, completam-se 40 anos desde que foi assassinado.

Para João Saldanha, o técnico que convocou a seleção de 70, Almir foi o jogador do futebol brasileiro mais completo depois de Pelé. Era técnico, hábil e rápido.

Mais tarde, quando contratado pelo Corinthians, foi chamado de Pelé Branco.

Começou a carreira no Sport, em 1956, e jogou também por Vasco, Corinthians, Boca Juniors, Genoa, Santos –onde sagrou-se bicampeão do mundo–, Flamengo e América-RJ, time em que encerrou sua carreira, em 1968.

Voltando à disputa com o Milan. No primeiro jogo, em Milão, o Santos perdera por 4 a 2. Amarildo, dois gols, Trapattoni e Mora anotaram pelo time italiano. Pelé marcou os dois do Santos.

Amarildo, entusiasmado com o resultado, declarou à imprensa que Pelé “já era”. E aí, o problema –o principal problema, para Almir.

“Vou jogar por mim e pelo negão”, disse. Almir estava determinado a acertar Amarildo porque, segundo ele, nenhum jogador que conhecesse futebol podia criticar Pelé.

No segundo jogo, em 14 de novembro de 1963, aos 17min, Altafini (o Mazzola, que jogou no Palmeiras e na seleção brasileira em 1958) e Amarildo já haviam feito dois a zero para o Milan.

A virada começou aos 4min do segundo tempo, quando Pepe, cobrando uma falta da intermediária, soltou um canhão e Ghezzi, o goleiro do Milan, mal teve tempo de ver a bola entrar.

Quatro minutos depois foi Mengálvio, desviando de cabeça um cruzamento de Dalmo. Lima aumentou para 3 a 2 e Pepe, com outro canhão em cobrança de falta, completou os 4 a 2.

Aí, diz Almir em seu depoimento, veio aquele que seria um dos momentos mais emocionantes de sua vida. Pelé foi abraçá-lo e disse: “Almir, você é grande”.

Na gravação, Almir desabafa: “Pelé talvez nem se lembre, mas aquele abraço, aquelas palavras, me deram alma nova para o segundo jogo”.

Pelé não se esqueceu. Diz que Almir era um dos melhores amigos que tinha no Santos. “Na noite desse jogo no Maracanã, eu estava machucado e não joguei. No final do jogo, entrei em campo para dar um abraço nele porque foi um guerreiro dentro de campo. Jamais esquecerei”.

Pepe também se recorda daqueles dias. Diz que o técnico Lula poderia ter escalado Toninho Guerreiro no lugar do Pelé. Mas preferiu Almir porque os jogos seriam no Maracanã, que era a casa dele. “Ele foi fundamental.”

Dois dias depois, também no Maracanã, haveria o desempate. O clima, segundo depoimento de Almir, era ainda pior do que no jogo anterior. Os italianos acusaram o juiz, o argentino Juan Brozzi, de estar vendido ao Santos. E provavelmente estavam certos, mas o juiz foi mantido.

Segundo Almir, Nicolau Moran, do estado-maior do Santos, foi a ele e lhe disse que o juiz não faria nada. “Você pode fazer o que quiser dentro de campo. Você é rei lá dentro.”

“Deixa comigo”, respondeu o jogador.

Almir nunca negou que foi um jogador violento. Mas também não se intimidava quando a violência era contra ele. E nessa disputa com o Milan temos dois exemplos.

A primeira vítima, claro, foi Amarildo. Logo no primeiro minuto, ele pegou uma bola e desceu pela esquerda. Almir correu na direção dele, pediu cobertura a Ismael e a Mauro e gritou: “Deixa esse filho da mãe comigo”.

“Foi um toco só. Ele caiu se contorcendo.”A segunda vítima foi o goleiro, Balzarini, escalado no lugar de Guezzi.

Almir conta: “Muito corajoso, ele se atirou numa bola que estava mais para mim. Não tive tempo de evitar o acidente nem estava com essa preocupação. Chutei a cabeça dele. Quando vi o sangue correr, me afastei, pensando que o tivesse inutilizado. Os italianos me cercaram, mas eu me fiz de vítima”.

O juiz não deu nada.

E continua Almir: “No segundo tempo, Lima fez um cruzamento pelo alto, eu estava ali pela marca de pênalti e vi que ia chegar um pouco atrasado na bola. Vi quando Maldini levantou o pé, tentando cortar o lançamento. Tinha que tentar tudo. Meter a cabeça para levar um pontapé de Maldini, correndo o risco de uma contusão grave, ficar cego, até mesmo morrer, porque ele vinha com tudo. Meti a cabeça, Maldini enfiou o pé e eu rolei de dor pelo chão. O argentino Brozzi não conversou: pênalti”.

Após mais de dez minutos de protestos dos italianos, Dalmo fez o 1 a 0.

Ainda Almir: “Até o fim, foi paulada de parte a parte. Mas o time todo queria acertar o Amarildo. Até que, antes da volta olímpica, Ismael foi lá e deu-lhe uma cabeçada”.

Outro jogo que entrou para história de Almir, e do futebol brasileiro, foi aquele em que ele, jogando pelo Flamengo, disputou uma final contra o Bangu, em 18 de dezembro de 1966.

O Flamengo tinha alguns problemas. Um deles era o ponta direita Carlos Alberto, que estava machucado, mas insistia em jogar. Almir tentou convencê-lo a desistir, mas não conseguiu.

Outro, Almir tinha uma séria desconfiança de que seu goleiro estava comprado pelo Bangu. E mais um, que ele só descobriu quando entrou em campo: o juiz estava comprado. Sansão –esse o apelido dele– ameaçou expulsá-lo antes de o jogo começar.

No primeiro lance, o lateral esquerdo do Bangu, Ari Clemente, atingiu violentamente Carlos Alberto. Sansão não deu falta nem advertiu Clemente. E o Flamengo passou a jogar com dez homens, porque Carlos Alberto mal se arrastava em campo (naquele tempo o único que podia ser substituído era o goleiro).

“Com pouco mais de 20 minutos, o Bangu deu outra entrada para quebrar. O atingido foi Nelsinho, peça vital no nosso meio-campo. Ele terminou o primeiro tempo capengando e no segundo praticamente apenas fez número”.

“Mas o desastre maior foi o nosso goleiro, Valdomiro. Tomamos dois gols em três minutos.”

No depoimento, Almir conta que, no segundo tempo, logo ao 3min, levaram outro gol do Bangu. “Houve um lançamento para Paulo Borges, que marcou um dos gols mais bonitos da história do Maracanã. Ele deu um chapéu em nosso zagueiro Ditão, para um lado, para o outro e, com a bola ainda no ar, deu um chute violentíssimo. Era o fim.”

Aos 25min, Ladeira, atacante do Bangu, deu um soco na cara de Paulo Henrique, que, segundo Almir, era “uma dama dentro de campo”.

Almir correu para acertar Ladeira, que fugiu. No meio do caminho o zagueiro Itamar, do Flamengo, com 1,90 m de altura, deu um salto e meteu o pé no peito de Ladeira. Então Almir chegou e foi chutando. Ari Clemente veio por trás e deu-lhe um soco.

“Aí eu vi que eles queriam brigar, e topei a parada. Comecei a distribuir socos e pontapés.” Quando essa briga acabou, e Ladeira foi retirado de maca, Almir saiu de campo –sabia que seria expulso. Ao passar pelo banco do Flamengo, ouviu uma ordem, disse que nem sabe de quem:

“Volta, Almir. Acaba com essa palhaçada deles.”

Ele voltou para o centro de campo. Nisso, cerca de 100 mil pessoas, a torcida do Flamengo (outras 43 mil eram do Bangu) começaram a gritar: porrada, porrada, porrada.

Ubirajara, goleiro do Bangu, ameaçou Almir. Disse que lá fora resolveriam. Almir respondeu dando-lhe um soco no estômago, e recebeu um soco de Ari Clemente.

“Eu estava cercado, mas fui enfrentando todos. Um pontapé num, um soco noutro.” Sansão expulsou cinco jogadores do Flamengo e quatro do Bangu. O Flamengo ficou sem jogadores para terminar a partida –o mínimo permitido é de sete jogadores. Sansão deu o jogo por encerrado, o Bangu era campeão.

TIROTEIO

O jornalista e escritor Mário Prata, que estava, na noite de 6 de fevereiro de 1973, em um boteco ao lado do bar Rio-Jerez, na Galeria Alaska, em Copacabana (barra pesada), conta que em uma mesa do mesmo Rio-Jerez estavam Almir, uma namorada e um casal de amigos.

Na mesa de trás, três portugueses. Na frente da mesa de Almir, os atores gays do espetáculo “Dzi Croquetes”, ainda maquiados depois de uma apresentação.

Os portugueses resolveram caçoar dos atores, chamando-os de veados, paneleiros e outras coisas. Almir não gostou do que ouviu e resolveu defender os atores, que não reagiram.

Começou a discussão, Almir agrediu um dos portugueses, até que um deles sacou um revólver, o amigo de Almir sacou outro e o tiroteio começou no calçadão da avenida Atlântica.

Os outros dois portugueses sacaram as armas. Os atores gritavam. Foi uma correria. Mesas foram viradas e ao menos uns 30 tiros disparados.

Quando o tiroteio terminou, lá estava Almir, no chão, já morto, com um tiro na cabeça. Os portugueses saíram correndo. Debaixo de um coqueiro, o amigo de Almir, o comerciante Alberto Ribeiro, agonizava com um tiro nas costas. Morreu ao dar entrada no hospital. Outro amigo de Almir, o agente de investimentos Elói de Lima, foi ferido quando fugia, o que derruba a defesa do assassino, Artur Garcia Soares, de que agiu em legítima defesa.

Detido, ele deu sua versão. Na época, falou-se em expulsá-lo do país. Outros queriam julgá-lo aqui. O fato é que o caso resultou em esquecimento: não se sabe o que foi feito de Artur.
Almir tinha 35 anos quando foi morto. Como diz Mário Prata, esta história tem um lado bonito: um machão como ele morrer defendendo um grupo gay.

*Publicado na Folha de São Paulo

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