7:26Fisiologismo é o mal maior

por Ivan Schmidt

Não apenas não se confirmaram as especulações sobre a indicação do ex-governador Orlando Pessuti à presidência da Sanepar, que segundo noticiavam as folhas, somente aceitaria o cargo com “porteira fechada”, ou seja, com a primazia de ele próprio nomear os demais ocupantes da diretoria da entidade.

Ao que me lembro, situação similar foi vivida pelo senador Álvaro Dias (na época sem mandato), convocado pelo então presidente Itamar Franco, que o convidou para a diretoria geral de Itaipu. Álvaro aceitou na hora e prometeu ao presidente que no dia seguinte apresentaria a lista dos demais diretores, todos de sua escolha pessoal. Itamar, com sua manha mineira, já havia negociado algumas diretorias da binacional com outros partidos – seu governo foi uma autêntica colcha de retalhos – e Álvaro gentilmente declinou.

Na bolsa de especulações, no meio da semana corria o papo que Pessuti havia sido chamado a Brasília a fim de conversar ao pé do ouvido com a ministra Gleisi Hoffmann e o vice-presidente Michel Temer, presidente licenciado do PMDB. Não sei se foi. Aos interlocutores, apesar dos relevantes postos ocupados no Executivo não foi possível encontrar, até agora, uma função representativa na máquina federal para o ex-governador. Não seria esse o principal motivo da conversa, lógico, mas sempre é bom lembrar que um cargo de visibilidade ajudaria a eliminar por completo a comichão de sucumbir ao aceno do governo estadual.

Enquanto isso na província, o governador Beto Richa anunciava os novos componentes do secretariado, que recebeu o reforço de Reinhold Stephanes (Casa Civil), Cesar Silvestri (Governo), Ratinho Junior (Desenvolvimento Urbano) e o vereador curitibano Zé Maria (Direitos das Pessoas com Deficiência). O novo presidente da Copel será Fernando Ghignone, até então na Sanepar, substituindo Lindolfo Zimmer, técnico de carreira aposentado da companhia. Para a presidência da Sanepar foi indicado Antonio Hallage, também um técnico de carreira.

Entretanto, o governador nada informou sobre os novos espaços pretendidos no secretariado pelo PMDB, que continua apenas com a Secretaria do Trabalho entregue ao deputado Luis Cláudio Romanelli. Não se descartava, porém, a saída de Cassio Taniguchi da Secretaria do Planejamento e sua substituição por Romanelli, cogitando-se o nome do deputado Waldyr Pugliesi para a Secretaria do Trabalho, embora se propale que o PDMB deseja também a Secretaria do Meio Ambiente, na qual gostaria de ver novamente o ex-prefeito de Londrina, Luiz Carlos Cheida.

O governador certamente estaria precisando de mais tempo para avaliar politicamente a repercussão do desembarque do PMDB no primeiro escalão da administração estadual, que ganha desenho bem mais adequado aos desafios eleitorais de 2014, quando estará em jogo a sucessão de Beto. Se a adesão peemedebista ao governo tucano se confirmar, decerto será em troca de apoio maciço à campanha de Beto pela reeleição e esse, infelizmente é um mal-estar que Pessuti terá dificuldades para suportar tendo em vista o compromisso com a ministra Gleisi Hoffmann. Voltarei ao assunto mais adiante.

Obviamente a escolha do deputado federal Ratinho Junior para uma das pastas diretamente relacionada com os prefeitos (Desenvolvimento Urbano) é um indicativo do reforço eleitoral pretendido por Beto nos dois últimos anos de mandato. Bafejado por cerca de 40% dos votos do eleitorado curitibano na última eleição para prefeito, Ratinho passou a ser um nome forte na política estadual, muito embora seja a primeira vez que terá sob responsabilidade um setor de grande complexidade pelo elevado número de obras, para as quais tudo indica que o governo deverá ter reservado dotação orçamentária altíssima.

É inegável que Beto espere de Ratinho a contrapartida eleitoral em 2014, mesmo que ninguém saiba se ela é exequível e, caso venha a acontecer, qual será a sua real dimensão. Político com bom trânsito, autor de emendas bem-sucedidas no orçamento federal (dentre as quais a do metrô curitibano), é obvio que não estará apenas sobre seus ombros a tarefa de garantir votos para a reeleição de Richa. Mas, em se tratando de político bom de prosa, charmoso e disposto a investir em sua própria carreira, a indicação para uma secretaria fim na composição de governo, é sinal de que Beto espera muito do novo colaborador.

A divisão da Casa Civil com a criação da Secretaria de Governo, para a qual foi deslocado Cesar Silvestri (antes no Desenvolvimento Urbano), é também evidência de que o governo sentiu a necessidade de estreitar o diálogo com os partidos da base e, sobretudo com os prefeitos. Dificilmente a incumbência de aumentar o cacife eleitoral de Beto seria entregue a um político da formação de Reinhold Stephanes, o atual secretário-chefe da Casa Civil.

Nesse caso específico, o governador Beto Richa certamente se inclinou pela escolha de um quadro altamente respeitado por todos os partidos, homem aberto ao entendimento que ostenta em sua biografia uma série de desafios importantes desde o ciclo militar. Ministro de governos presididos por generais e depois na redemocratização, Stephanes sempre marcou sua atuação pela discrição e objetividade e não será agora que se permitirá deslustrar uma experiência política longa e invejável.

Stephanes agirá como um gerente com (quase) todos os poderes, impondo-se até mesmo à pessoa do governador como conselheiro político e administrativo, área em que Beto até agora pareceu trafegar um tanto desguarnecido.

Caso a indicação de Hallage para a presidência da Sanepar não seja um recado explícito à dispensa de Pessuti, até para contornar a pretensão da “porteira fechada” que governador algum aceitar em sã consciência, também não será fácil o rompimento do compromisso do ex-governador com a ministra Gleisi Hoffmann, selado com a indicação de Sergio Souza para uma das suplências na chapa da então candidata ao Senado.

Com a ida de Gleisi para a chefia da Casa Civil Souza foi convocado para ocupar a vaga e, caso haja uma inesperada fissura nas relações PT-PMDB e sua inegável relação com a eleição para o governo estadual em 2014, haveria mais uma brusca guinada no cenário imediato da política paranaense. Resumindo, o virtual apoio do PMDB ao candidato petista (leia-se Gleisi) seria transferido para o tucano Beto Richa, em cujo cercado a bancada estadual peemedebista tenciona amarrar os cargueiros.

Há outro senão. O vice-presidente Michel Temer, que parece não alimentar a menor simpatia pelo senador Roberto Requião, é um respeitável avalista do protagonismo de Pessuti no PMDB paranaense e, certamente, não veria com bons olhos o gesto afoito do partido numa das mais importantes unidades da Federação, tomando as providências cabíveis para salvaguardar a economia interna justamente no momento em que se pensa na solidificação do acordo com o PT, não apenas visando a campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff, mas a conquista do maior número possível de governos estaduais.

É preciso lembrar também que na recente convenção estadual do PMDB foi eleito para a presidência o deputado federal Osmar Serraglio, político respeitado por sua firme conduta no parlamento brasileiro, que a meu ver não emprestaria o nome e tampouco o prestígio adquirido em sucessivos mandatos para legitimar a veleidade adesista do PMDB ao governo tucano.

O presidente do PMDB, a julgar pelo retrospecto de sua trajetória, dificilmente assinaria embaixo da proposta incorporada pelos deputados estaduais, que obviamente pensam em sua própria sobrevivência política. Mesmo considerando a dificuldade de se fazer política sem as benesses do governo, com a redução da margem para a barganha das emendas pessoais e, ainda por cima com o acesso dificultado aos prefeitos que agem como cabos eleitorais, cujo caminho natural é seguir as ordens palacianas, não há como esconder que o fisiologismo é muito pior.

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