6:50Pobre imprensa paranaense!

por Célio Heitor Guimarães

Assisti à entrevista de Mussa José Assis no “Direto com a Fonte”, de Herivelto de Oliveira, na ÓTV, e depois a revi aqui neste espaço do grande Zé Beto, e fiquei triste. Como é que um jornalista da dimensão, da qualidade, da capacidade e do talento de Mussa está afastado da imprensa?!

Mussa José Assis foi o maior jornalista da minha geração. Estivemos juntos na velha Última Hora, uma das mais destacadas escolas de jornalismo do Paraná. Ali, convivemos com gente como Jairo Regis, Walmor Marcellino, Luiz Geraldo Mazza, Pery de Oliveira, Milton Cavalcanti, Milton Ivan Heller, Adherbal Fortes de Sá Jr., Aramis Millarch, Sylvio Back, Vinícius Coelho, Maurício Fruet, Mauro Ticcianelli, Mauri Furtado, Francisco Camargo, Cícero Cattani, Alenir Dutra, Carlos Augusto Cavalcanti de Albuquerque, Celina Luz, Clóvis de Souza, Edison Jansen, Enéas Faria, Jalvi Ferreira, Miecisleu Surek, Lascir Costa, Francisco Bettega Neto, Walmor Weiss e tantos outros. Ary de Carvalho, que depois fundaria Zero Hora, de Porto Alegre, e dirigiria O Dia, do Rio, era o diretor; Mussa, o secretário da redação. Depois, convocado por Samuel Wainer, foi fazer um estágio na Última Hora de São Paulo e acabou secretariando não apenas a edição paulista, mas todas as demais dela derivadas. UH foi o primeiro jornal nacional impresso regionalmente. A edição paranaense saía do forno em São Paulo, mas chegava às bancas do Paraná antes dos jornais curitibanos.

Como escreveu Fausto Wolff, foi uma época em que o jornalismo era parcialmente do povo: “Enquanto o poder brigava podia-se dizer a verdade. Isso se devia ao fato da maioria dos jornalistas também proceder do povo. Logo sua visão do país e dos acontecimentos não era uma visão burguesa mas principalmente classe média baixa, proletária ou sindical. Éramos aqueles jovens que tínhamos algum jeito para escrever que por sorte ou circunstância chegavam a alguma redação onde começavam como uma espécie de contínuo e auxiliar de reportagem policial”.

E foi em frente o saudoso Wolff: “Quase todos entendíamos que a sociedade e as autoridades eram injustas para com os humildes e nos colocávamos ao lado deles, pois os conhecíamos bem. Ninguém ganhava muito mas não estávamos interessados nisso. Éramos jovens e queríamos descobrir a verdade que uma realidade de superfície tentava esconder. A vida era uma aventura e ser jornalista, um orgulho, uma glória”.

Mais tarde, reencontrei-me com Mussa em O Estado do Paraná, jornal que ele moldou à sua imagem e semelhança, onde todas as tendências tinham vez e podia-se opinar com absoluta liberdade. Ele achou (como tem achado hoje o nosso Zé Beto) que eu ainda era capaz de juntar letrinha com letrinha e compor um texto ao menos inteligível. Por culpa dele, fiquei lá mais do que ele, até o jornal despedir-se melancolicamente dos leitores.

Hoje, Mussa está recolhido ao sítio que construiu com suas próprias mãos, nas proximidades de Colombo, e a imprensa local cada vez mais pobre de talento. Abro os jornais impressos que ainda sobrevivem e sinto uma imensa vontade de chorar. Como se está desperdiçando um dos mais eficientes e poderosos meios de comunicação!… E aí me lembro do artigo de Geneton Moraes Neto, escrito nos idos de 2008 e outro dia aqui republicado pelo Zé Beto: “Feitos desse jeito, os jornais impressos estão caminhando celeremente para o mausoléu”.

E Geneton, da Rede Globo de Televisão, não tem dúvida de quem serão os coveiros da imprensa: “São aqueles profissionais que aplicam cem por cento de suas energias para produzir produtos burocráticos, óbvios, chatos, soporíferos e repetitivos”. Ou, ainda em suas próprias palavras: “burocratas entediados e pretensiosos que vivem erguendo barreiras para impedir que histórias interessantes cheguem ao conhecimento do público”. E ele garante que “A regra vale para jornal impresso, revista, rádio, TV, internet, o escambau”.

Enquanto isso, mestres da comunicação, como Mussa José Assis e Francisco Camargo, para ficar apenas em dois exemplos, cumprem aposentadoria precoce e profundamente lamentável…

3 ideias sobre “Pobre imprensa paranaense!

  1. Raul Urban

    Tenho orgulho em dizer que Mussa, mais que o habilidoso e talewntoso jornalista que fez história, foi não só meu “pai” em O Estado, onde permaneci de 1967 a 1974. Ele foi, tamb´-em, meu professor (de diagramação, imaginem, coisa que nem se aprende ou apreende em faculdade alguma no século da tecnologia de ponta), na velha Universidade Católcia do Paraná, qd aluno de Jonralismo, de 67 a 70. Foi com ele q me iniciei na profissão, ao lado de diagramadores como Antoninho Cordeiro, Mara Welte e Carmem Cattani – na época, noiva do Cícero ainda. Pois é: na velha redação da Barão tivemos, além do querido Pancho, hoje e há mt na Gazeta, o tb saudeoso Gilberto Mezzomo, o finado Aramis Millarch, Édison e Oswaldo Jansen na foto, ao lado do bom Portão (não sei se er fotógrafo primeiro e militar da PMPR no intervalo, ou vice-versa!). Mussa estava naquele aquário – depois transplantado à redação nas Mercês, para onde fui e encerrei meu ciclo até minha ida à sucursal local da Folha de Londrina – cercado de gente como Gilberto Ricardo dos Santos, Enock Lima Pereira, Benedito Branco, meu colega de turma, o saudoso Karam, mais Malu Maranhão, |Teresinha Cardoso, Sônia Nassar (a mulher pioneira no esporte, irmã da querida Sandra, até hoje no pedaço). Ou teria havido a inteligência de Jaques Brand? Pois é, Renatinho Schaitz, Adherbal Fortes, o próprio Célio (não sei se ele lembra de mim), quando não tendo que suportar as figadices” do sempre mal-humorado Barriga, o chefe de oficina qaue tanto me ensinou enquanto usávamos linotipo e a diagramação aind era em cíceros e não em paicas (ah, tenho as réguas até hoje em casa, além das tradicionais folhas dee diagramação do jornal). É, o Mussa que está longe hoje, recolhido em Colombo, é quem vez ou outra ainda perambula no velho e bom agora reformado Mercado Municipal – tb minha casa desde os anos 1960, como cidadão comum, mais recentemente como assessor de imprensa qd atendia a Secretaria Municipal do Abastecimento, lá no peíodo de 2002 a 2006, se não me engano. O Mussa colecionador dos carros incluia um veterano e venerando DKW Vemag Fissore – não sei se o carro sobrevive, mas nos prateados e ralos cabelos de meu Mestre, o que me ensinou a usar régua e compasso, está contido o conehcimento e, em especial, a alma de quem soube, no andar da História da Imprensa do Paraná (e do país, pq a Ultima Hora é parte disso, além de outrfos veículos), mostrar-se como alguém especial dentro de um cenário hoje lúdico e saudoso para todos nós. Foi curioso: antes de “descer” para O Estado, lá na Barão, me iniciei com o tb saudoso Kid Carodo na Rádio Guairacá, mas oriundo, nesse 67, da velha Rádio Independência então pilotada pelo carinhosamente chamado “velho Maia”, que tinha Jair de Britto como diretor-geral. O mesmo Jair que, em 63, conheci aidna em Joinville – de onde sou -, qd dirigia a Rádio Cultura e onde me iniciei no jornalismo que neste maio completa 45 anos de minha vida. Mussa, meu forte abraço e um obrigado pelas aulas perenes.

  2. Parreiras Rodrigues

    Como gosto de ler coisas assim, como escreve dr. Célio e emenda Raul Urban. Gosto de lembrar de nomes como Aramis, caraio que cara legal, e outros ai até chegar ao Brand que com aquela voz de quem está cantando moça donzela, ensina em meia hora de papo o que não se aprende no mês numa escola. Mais meu amigo comuna o Marcelino e o dr. Clóvis. Eu ficava besta da atenção que os dois cabeções davam prum batedor de requerimentos e esparramador de releases na Alep.
    Lembro-me – esquecer como haveria de? que levei um texto pro Mussa lá no Estado do dr. Paulo. Ele colocou as folhas de lado e ficou conversando comigo, como se estivesse conversando com Carlos Heitor Cony, com Cláudio Humberto, gente assim desse calibre. De vez em quando um relance nelas, nas ditas laudas, umas cinco. Quando tava saindo ele chamou um rapaz e mandou diagramar. (Não era você não, Raul) No outro dia, a matéria inteirinha.
    Por um mês, fiquei bebendo só estanheguer e esmirnofe, pois cachaça é prá foca.

  3. Célio Heitor Guimarães

    Claro que lembro de você, Raul. Como esquecer de um bravo joinvillense, que ofereceu o seu talento às rádios Guairacá e Independência e ao jornal O Estado do Paraná, e que teve, como eu, mestres como Jair Brito, Euclydes Cardoso e Mussa José Assis?! Essa geração está envelhecendo, mas, cá entre nós, sem que a modéstia nos atrapalhe, era boa prá cacete!…
    P.S. – Já visitou o site O Rádio do Paraná, do Wasyl Stuparyk, ex-Basílio Jr.?

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