16:43O financiamento do banco e o pãozinho quente da padaria na esquina

Carta a diretores de banco (serve para todos) e capturada na internet pelo chapa José Aresta:  Carta a diretores de banco (serve para todos) e capturada na internet pelo chapa José Aresta:

Gostaria de saber se os senhores aceitariam pagar uma taxa, uma pequena taxa mensal, pela existência da padaria na esquina de sua rua, ou pela existência do posto de gasolina ou da farmácia ou da feira, ou de qualquer outro desses serviços indispensáveis ao nosso dia-a-dia.

Funcionaria assim: todo mês os senhores, e todos os usuários, pagariam uma pequena taxa para a manutenção dos serviços (padaria, feira, mecânico, costureira, farmácia etc). Uma taxa que não garantiria nenhum direito extraordinário ao pagante. Existente apenas para enriquecer os proprietários sob a alegação de que serviria para manter um serviço de alta qualidade.

Por qualquer produto adquirido (um pãozinho, um remédio, uns litros de combustível etc) o usuário pagaria os preços de mercado ou, dependendo do produto, até um pouquinho acima. Que tal? Pois, ontem saí de seu Banco com a certeza que os senhores concordariam com tais taxas. Por uma questão de equidade e de honestidade.

Minha certeza deriva de um raciocínio simples. Vamos imaginar a seguinte cena: eu vou à padaria para comprar um pãozinho. O padeiro me atende muito gentilmente. Vende o pãozinho. Cobra o embrulhar do pão, assim como, todo e qualquer serviço.

Além disso, me impõe taxas. Uma “taxa de acesso ao pãozinho”, outra “taxa por guardar pão quentinho” e ainda uma “taxa de abertura da padaria”. Tudo com muita cordialidade e muito profissionalismo, claro.

Fazendo uma comparação que talvez os padeiros não concordem, foi o que ocorreu comigo em seu Banco. Financiei um carro. Ou seja, comprei um produto de seu negócio. Os senhores me cobraram preços de mercado. Assim como o padeiro me cobra o preço de mercado pelo pãozinho. Entretanto, diferentemente do padeiro, os senhores não se satisfazem me cobrando apenas pelo produto que adquiri.

Para ter acesso ao produto de seu negócio, os senhores me cobraram uma “taxa de abertura de crédito’”- equivalente àquela hipotética “taxa de acesso ao pãozinho”, que os senhores certamente achariam um absurdo e se negariam a pagar. Não satisfeitos, para ter acesso ao pãozinho, digo, ao financiamento, fui obrigado a abrir uma conta corrente em seu Banco.

Para que isso fosse possível, os senhores me cobraram uma “taxa de abertura de conta”. Como só é possível fazer negócios com os senhores depois de abrir uma conta, essa “taxa de abertura de conta” se assemelharia a uma “taxa de abertura da padaria”, pois, só é possível fazer negócios com o padeiro depois de abrir a padaria.

Antigamente, os empréstimos bancários eram popularmente conhecidos como “papagaios”. Para liberar o “papagaio”, alguns Gerentes inescrupulosos cobravam um “por fora”, que era devidamente embolsado. Fiquei com a impressão que o Banco resolveu se antecipar aos gerentes inescrupulosos. Agora ao invés de um “por fora” temos muitos “por dentro”.http://jornale.com.br/zebeto/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

Tirei um extrato de minha conta – um único extrato no mês – os senhores me cobraram uma taxa de R$ 5,00. Olhando o extrato, descobri outra taxa de R$ 7,90 “para a manutenção da conta” semelhante àquela “taxa pela existência da padaria na esquina da rua”.

A surpresa não acabou: descobri outra taxa de R$ 22,00 a cada trimestre – uma taxa para manter um limite especial que não me dá nenhum direito. Se eu utilizar o limite especial vou pagar os juros (preços) mais altos do mundo. Semelhante àquela “taxa por guardar o pão quentinho”.

Mas, os senhores são insaciáveis. A gentil funcionária que me atendeu entregou um caderninho onde sou informado que me cobrarão taxas por toda e qualquer movimentação que eu fizer.

Cordialmente, retribuindo tanta gentileza, gostaria de alertar que os senhores esqueceram de cobrar o ar que respirei enquanto estive nas instalações de seu Banco. Por favor, me esclareçam uma dúvida: até agora não sei se comprei um financiamento ou se vendi a alma!

Depois que eu pagar as taxas correspondentes, talvez os senhores me respondam informando, muito cordial e profissionalmente, que um serviço bancário é muito diferente de uma padaria. Que sua responsabilidade é muito grande, que existem inúmeras exigências governamentais, que os riscos do negócio são muito elevados etc e tal. E, ademais, tudo o que estão cobrando está devidamente coberto por lei, regulamentado e autorizado pelo Banco Central.

Sei disso. Como sei, também, que existem seguros e garantias legais que protegem seu negócio de todo e qualquer risco. Presumo que os riscos de uma padaria, que não conta com o poder de influência dos senhores, talvez sejam muito mais elevados. Sei que são legais. Mas, também sei que são imorais. Por mais que estejam garantidas em lei, vocês concordam o quanto são abusivas?

2 ideias sobre “O financiamento do banco e o pãozinho quente da padaria na esquina

  1. Parreiras Rodrigues

    O mundo será feliz quando desaparecerem o último banqueiro, o último corrupto e o último fanático religioso. Nem me lembro mais quem disse isso, mas parece que foi hoje.

  2. Zangado

    Excelente.

    Está aparecendo a ponta do iceberg da irresignação da sociedade a certas práticas que, embora “legais” (Hitler conquistou o poder sob a égide da lei …), são publicamente imorais.

    Nunca antes nesse país – costumeiramente diz uma autoridade por demais “honoris causa” – os bancos ganharam tanto num país.

    Se tivessemos um novo Pe. Antonio Vieira quiçá hoje escreveria o “Sermão do Bom Taxador”:

    “Tanto que aqui chegam, começam a taxar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Taxam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. (…) Taxam juntamente por todos os tempos, porque do presente — que é o seu tempo — colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro, (…) nos mesmos tempos, não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque taxam, taxaram, taxavam, taxariam e haveriam de taxar mais, se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a taxar para taxar.”

    Como se não bastasse tarbalharmos 5 meses no ano para pagar os tributos públicos, quantos mais trabalhamos para pagar as taxas bancárias supinamente cobradas … sem falar nos juros …

    E tem gente que acha que o país vai bem sem educação, saúde e segurança públicas de qualidade, falta de emprego e oportunidades aos trabalhadores e estudantes, corrupção desenfreada, criminalidade crescente, politicagem tocada à base de personalísmos manifestos …

    Ora, gente, despertai !!!!

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