14:24A síndrome de sucesso, o provincianismo e a castração de uma cidade potencialmente criativa

por Augusto Pimentel Pereira*

Cresci em uma cidade modelo. Uma cidade que fazia campanhas para conscientização da população, que se munia de jingles, personagens e todo aparato necessário para fazer com que estas campanhas fossem bem sucedidas. Fala-se hoje da Curitiba que tem um dos maiores índices de reciclagem do Brasil, porém esquece-se que por trás disso houve uma mobilização enorme voltada à conscientização da população.

Duvido um curitibano, e que por aqui estava no início dos anos 90, que esteja lendo o texto agora não se lembrar do famoso jingle da Família Folha – Lixo que não é lixo. Ou então da Rede Integrada de Transporte e a implantação do sistema BRT – Bus Rapid Transit, ou o “expresso”, como também é conhecido por aqui – pioneiro e referência para todo o mundo. Esses e outros hits de sucesso da cidade, ao longo dos anos 70, 80 e início dos anos 90, a colocaram em uma posição de destaque no mundo inteiro tendo, até mesmo, ganho o prêmio Globe Sustainable City Award 2010 e uma Menção Honrosa no Sustainable Transport Award 2010. Motivos de orgulho a qualquer um, inclusive ao bom provinciano.

Mas estes prêmios refletem a atual realidade da cidade?

É mais do que sabido que premiações deste gabarito são resultados de anos de trabalho, e que este deve ser continuado para que o reconhecimento continue fazendo jus à fama que trazem. Grandes resultados vem de grandes mudanças, que por sua vez levam tempo para que se completem, ou seja, muito do que Curitiba colhe hoje, se deve ao trabalho que teve início nos anos 70 – ou talvez muito antes, nos primeiros planos para a cidade, no início do século XX. Além disso, as cabeças se renovam, o mundo se renova, a criatividade e as grandes soluções para a cidade devem seguir o mesmo rumo. Porém, não é o que vemos por aqui. Aparentemente para alguns, o que foi feito no passado parece ser suficiente para garantir à Curitiba o título de “A melhor cidade do mundo, para sempre”. Pensar isso é o mesmo que supor que os Beatles, após Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dessem-se por satisfeitos e passassem a fazer somente shows relembrando os sucessos do passado. A esse ponto não conheceríamos o Álbum Branco, Abbey Road ou Let It Be, e talvez os próprios Beatles fossem “apenas” outra grande banda da história, mas não a maior de todas.

Ousadia traçar comparações com a mais importante banda da história? De forma alguma, se por aqui se almeja sempre ser a melhor cidade do planeta.

Algumas lições que podemos tirar dos britânicos é que é preciso criar, sempre! Nem tudo é sucesso, mas tudo se aproveita, faz parte de uma sucessão de ações que, no futuro, irão contribuir para a construção de uma cidade melhor. Poder dizer “Isto já tentei e não deu certo.” é infinitamente melhor a “Não vou tentar, isso não vai dar certo!”. Outro ponto importante é saber que, às vezes aquilo que vem de fora também é bom, ainda que o pensamento provinciano grite dentro de nós querendo dizer que não. Colaborar, participar, compartilhar. Ações fundamentais para que uma cidade se desenvolva plenamente. Por fim, e talvez a mais importante das lições seja saber a hora de parar. Quando já deu, já deu. Os Beatles em carreira solo foram brilhantes, talvez não tanto quanto o conjunto, mas era o tempo de cada um seguir seu caminho. Deixaram espaço para novas bandas, para que novosJohns, PaulsGeorgesRingos surgissem, ou quase isso. O importante é que a música não parou pelo fim dos Beatles. Assim como Curitiba não pode parar de evoluir, mudar e revolucionar. Inovamos ao criar o IPPUC, as vias estruturais com corredores exclusivos para ônibus e edifícios de uso misto, o sistema integrado de transporte, o zoneamento que elege a permeabilidade como condição primordial para a ocupação do solo urbano. Revolucionamos, ao fechar uma rua e torná-la exclusiva para pedestres. Talvez seja a hora de olhar um pouco para fora dos limites da província. Sair novamente da zona de conforto (não tão confortável quando em engarrafamentos e ônibus lotados) na qual nos colocamos décadas atrás e chacoalhar a vida do cidadão curitibano. Vão achar ruim, vão reclamar. Bem como reclamaram das canaletas exclusivas e da rua onde não transitavam mais carros, é inevitável ao provinciano reclamar se sua rotina (ainda que terrível seja) for quebrada.

O que vale aqui é salientar que por aí estão novos JohnsPaulsGeorgesRingos – ou AlfredsJorgesIvos Jaimes** – e para que possam ter o mesmo efeito de seus precursores, precisam de sua coragem, iniciativa e ousadia. Do contrário, seremos só mais uma banda do passado com um ou outro hit de sucesso que influenciou a muitas outras gigantes de amanhã.

**Alfred Agache, Jorge Wilheim, Ivo Arzua Pereira e Jaime Lerner são alguns nomes determinantes na conformação de Curitiba como a conhecemos hoje.

*Arquiteto e urbanista formado pela PUCPR, um dos fundadores doescritório M.4+ Arquitetura e Urbanismo. Foi aluno do Máster Eco-Polis – Máster Internacional em Políticas Ambientais e Territoriais para a Sustentabilidade e o Desenvolvimento Local, da Universidade de Ferrara, na Itália, onde hoje atua comoprofessor adjunto).

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