7:06Três dias de chuva

Ilustração de Theo Szczepanski

por Rogério Pereira

1.
O centro de Curitiba é a porta do inferno. Almas penadas saltam dos bueiros. Assombrações bailam um foxtrote no escorregadio petit-pavé. Zumbis buscam a saída de emergência. Cérbero rosna enfurecido. Espalham-se molambentos pelas vielas que não levam nem ao purgatório. E quando chove — e sempre chove em Curitiba —, misturam-se todos sob guarda-chuvas de dez reais, fabricados na China, ou marquises de resignados comerciantes.

A chuva escorre pela Cândido Lopes. O homem para ao meu lado. As mangas do paletó molhadas. A chuva engrossara logo após o almoço. As ruas estão tomadas de operários de pança cheia. Inclusive eu, diante do hotel de luxo à espera de uma trégua dos céus para atravessar a rua e entrar na Biblioteca Pública. Sem qualquer preâmbulo, o homem desembesta a falar.

— Deve ser caro este ônibus. — E aponta para o micro-ônibus que leva ao aeroporto.

— Não é muito. Vale a pena — respondo sem entusiasmo.

— Você já pegou?

— Sim.

(Quando criança, o pai me convidou para ir ao aeroporto ver a decolagem e a aterrissagem dos aviões. Típico programa de pobre. Só vou quando puder viajar de avião. Então, não vai nunca. Viajo quase todo mês de avião. Meu pai nunca viajou de avião. E também nunca me acompanhou até o aeroporto.)

— Nesse hotel tem uma lista de meninas. É só escolher, pagar e levar. Sabia?

— Quase todo hotel tem — respondo um pouco irritado.

— Mas as daqui, dizem, são muito caras.

— Ali na esquina. ­— E aponto em direção ao cruzamento da Cândido Lopes com a Ébano Pereira.

— O quê?

— Os travestis à noite são baratos. Acho que com cinquentão, você leva. Ou as prostitutas. Há sempre vários por aqui.

— Tô fora. Não gosto disso, não — responde assustado.

— Entendo.

Ele me olha sem compreender a ironia. Esfrega as mãos molhadas no paletó. Conta que sempre vai à Biblioteca.

— É um lugar bacana ­— digo da maneira mais amigável possível.

— Sim. É muito bom para usar o banheiro.

E atravessa a rua correndo, com Cérbero nos seus calcanhares. Então, grita: — Quando chove, sinto muita vontade de mijar.

2.
A garoa é insuficiente para encharcar o pelo dos dois cachorros e o terno do dono. Estou no salão de café da manhã do hotel Paraíso. Sempre me sento à janela e contemplo o início do dia no centro de Curitiba, enquanto o café com leite esfria na xícara de porcelana chinesa. Tudo é fabricado na China. O homem tenta atravessar a Cândido Lopes e passear com os cães. Na cola deles, um vira-lata provoca os colegas de raça. Talvez inveja, ciúme ou simples birra matinal. Os cães não se decidem entre seguir as ordens do dono, que os arrasta por coleiras de couro, ou encarar o atrevido guapeca. O impasse dura alguns segundos. O homem de terno começa a se irritar. Puxa com força desnecessária os cães. O vira-lata não arreda o pé. Meu café com leite esfria. A porcelana chinesa não é muito boa para reter calor. O homem está no meio da pista. O dono do vira-lata aparece. É um catador de papel. Olha o homem de terno e sorri com muita ironia. O homem de terno pede para que leve o cachorro embora. O catador não faz nada, não diz nada. Não precisa. O animal de pelo sovado o segue de cabeça baixa e deixa em paz os cães do homem de terno.

Do outro lado da calçada, são e salvo com seus cães, o homem de terno retoma o passeio. Da panificadora Elite sai o travesti mais velho da região. Está abraçado a um pacote de pães. Usa shorts jeans bem curto, miniblusa amarela e havaianas. As próteses de silicone são imensas e rasgam a pele flácida — duas abóboras amparadas por uma película plástica. Sempre está por aqui. É uma espécie de matriarca dos travecos. Tem os lábios aumentados por injeções de botox (ou silicone). Não sei muito bem em que partes do corpo se pode enfiar silicone. Acho que nas partes mais moles. Na canela, não é recomendado.

O travesti peitudo passa pelo homem dos cães sem esboçar qualquer reação. O homem de terno volta-se discretamente para contemplar a bunda dura do travesti. Ele não consegue se livrar de um inoportuno vira-lata e, talvez, não saiba a diferença entre um travesti e uma prostituta.

A garoa começa a se transformar em chuva. Meu café esfriou definitivamente na xícara chinesa.

3.
É quase meia-noite. Entro na Cruz Machado. Dirijo devagar e com cuidado. A chuva fina já molhou bem o asfalto. A rua está tomada de prostitutas, travestis, bêbados, seguranças, garçons, drogados, traficantes, mendigos. Na esquina com a Ermelino de Leão, uma prostituta seduz possíveis clientes apenas de lingerie preta: peitos grandões num sutiã meia taça; bunda exposta de lado para a calçada. Tenho dúvidas se é puta ou travesti. Acho que é travesti. Mas tudo é possível no centro de Curitiba. E sou míope. Um perigo ser míope no centro de Curitiba. Ainda mais em dia de chuva.

Quando chego à Ébano Pereira, um travesti (sim, era travesti: quase dois metros de altura) está impecavelmente vestido: calça preta, botas, jaqueta comprida e um lenço em torno do pescoço. Na mão direita um guarda-chuva. Um inusitado Humphrey Bogart. Numa esquina, alguém quase nu; na outra, uma dama de guarda-chuva à espera de um gentil cavalheiro. Sigo em direção ao hotel Paraíso.

É foda quando chove em Curitiba.

*Publicado no site Vida Breve (www.vidabreve.com)

Uma ideia sobre “Três dias de chuva

  1. Ana Paula

    Parabéns a quem escreveu este artigo.
    Moro na região e fico envengonhada com o texto que foi publicado(não com quem escreveu, mas por ser verdade tudo o que ali foi colocado).Tenho filhas pequenas e mãe idosa, que infelismente convivem com este tipo de coisa diariamente.
    O respeito deixou de existir e a vergonha se escancarou nas imediações .
    Att: Ana Paula

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