9:56A lição de Antonio Ribeiro Netto

por Elio Gaspari*

O neurocirurgião Adão Crespo, do Hospital Salgado Filho, do Rio, faltou ao serviço no dia de Natal. Por isso, a menina Adrielly dos Santos, de 10 anos, ficou oito horas esperando por atendimento adequado. Tinha uma bala na cabeça.

Chamado à polícia, informou que faltava aos plantões há um mês, porque discordava da escala de serviço. Segundo o doutor, uma determinação do Conselho Regional de Medicina manda que haja nos hospitais públicos dois neurocirurgiões por plantão. Como escalavam-no sozinho, não ia. Lindo. O Cremerj determina que os plantonistas sejam dois, e o neurocirurgião decide que é dois ou nada, passa o dia de Natal em casa e Adrielly fica com a bala na cabeça. Vale registrar que é uma temeridade botar um caso como o da menina nas mãos de um só neurocirurgião. Seria necessário que no plantão houvesse pelo menos um residente para assisti-lo. Bingo: o sistema público do Rio não tem mão de obra para respeitar essa necessidade.

Se o doutor Crespo, ou qualquer outro, quer se rebelar contra a má qualidade dos serviços públicos de saúde, tem dois caminhos: pede as contas ou usa o seu tempo disponível para infernizar a vida do prefeito Eduardo Paes, do governador Sérgio Cabral, do ministro Alexandre Padilha e da doutora Dilma. Pode até protestar contra o papa, mas não pode faltar ao serviço, nem se defender na polícia com o manto branco do corporativismo médico.

Crespo e todos os seus similares deveriam ser convidados a preparar uma biografia de um colega: Antonio Ribeiro Netto. Durante mais de 40 anos, até sua morte, nos anos 90, foi cirurgião de tórax do Hospital Souza Aguiar. Lá, o CTI da neurocirurgia chamava-se “Coreia”. Não sabia quanto ganhava. Quando se aborrecia com as questões do cotidiano, ia para o hospital adiantar procedimentos cirúrgicos. Em 1993, vendo a medicina pública do Rio assolada por “escolhas de Sofia”, nas quais os médicos eram obrigados a decidir quem morreria por falta de atendimento, ele olhava para o descalabro e dizia: “A culpa é minha. Fui míope. Talvez se eu tivesse ido para os jornais atacar o governador, talvez se eu tivesse entrado aos gritos no gabinete do secretário, não sei. A verdade é que deixei a peteca cair”. Dizia isso sabendo que nunca faltara a plantão. Hoje Ribeiro Netto é nome de policlínica, mas seu exemplo perdeu-se na poeira do descaso.

As guildas médicas são incapazes de diagnosticar as patologias individuais de seus profissionais. Algo como se um doutor, diante de um caso de pneumonia (o neurocirurgião que falta ao serviço), quisesse discutir o aspecto epidemiológico do problema (a falta de dois profissionais no plantão). Nisso, Adrielly ficou com a bala na cabeça. O Conselho Regional de Medicina faz bonito quando pede dois neurocirurgiões, mas fica numa posição troncha quando um deles se justifica usando sua recomendação para deixar o plantão sem neurocirurgião algum.

Já os presidentes, ministros, governadores e prefeitos dedicam-se a uma espetacularização da ruína. Sérgio Cabral chegou ao governo dizendo que a medicina pública do Rio praticava um “genocídio”, e o prefeito Eduardo Paes disse que Adão Crespo é “um delinquente”. E o chefe do doutor, a quem ele diz ter comunicado que não iria aos plantões?

*Publicado na Folha de São Paulo

2 ideias sobre “A lição de Antonio Ribeiro Netto

  1. Emerson Paranhos

    Tenho um irmão médico que fez de sua profissão sacerdócio. Expédiente de 16 horas etc.. segurando salvando vidas e segurando a barra de políticos do pT que desfilam com sua teúdas e manteúdas com o nosso dinheiro dos impostos escorchantes em orgias imorais pelo mundo (não tendo hora para expediente). Resultado: meu irmão perdeu a familia (chifre) e hoje é um medico (sacerdote) amargurado. Seá que o Sr Gaspari já enfrentou um plaNTÃO NOS HOSPITAIS DO lULLA (segundo o Ex presidente são do primeiro mundo – será que o sr Gaspari já teve a angustia de escolher quem vai morrer). Porque o médico não pode passar um dia com a familia??????O Sr Gasdpari em seu arrazoado não explicou como é a folga da escala (será que ele sabe o que é escala??? trabalhar 24 horas tomar um bano e voltar a fazer uma cirurgia suando e extremamente cansado.????)
    Os critico que aproveitam a dor para promover suas colunas e suas oponiões as vexes mostram toda a covardia do mundo.

    Então os Sr Gaspari que seja mais objetio e acuse os verdadeiros culpados: Os politicos liderados pelo Ex presidente arrotão Sr Lulla)

  2. antonio carlos

    Infelizmente nesta história toda temos 3 delinqüentes, o médico faltoso contumaz, ele mesmo o confessou, o prefeito que o acusou de delinqënte e o governador do Estado, que não fez nada para melhorar a situação da Saúde Pública do Estado. E quem pagou por tudo isto foi a coitada da Adrielly, que não tinha nada a haver com as desculpas do médico irresponsável e com as demagogias do prefeito e do governador. Não está gostando do trabalho, ah não? Então peça a conta. Vi muito disto enquanto ainda trabalhava, os médicos não conseguem largar o osso do serviço público. E não são só os médicos, os dentistas, farmaceuticos e outros profissionais de nivel superior, vivem dando cano no serviço, mas cair fora e encarar a vida de verdade lá fora, sem um pezinho no serviço público, nunquinha da silva. ACarlos

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