6:26Panorama além da paliçada

por Ivan Schmidt

Depois de quase 30 anos de controle sobre o diretório estadual do PMDB, efetivado com a saída do partido do então governador Álvaro Dias, nos últimos dias de mandato, o senador Roberto Requião foi altamente beneficiado por uma liderança que muitos agora contestam pela forma autoritária com que foi exercida.

O período de vacas gordas foi inaugurado pelo primeiro mandato de governador obtido com o apoio irrestrito do próprio Álvaro, que preteriu companheiros mais fieis (Luiz Carlos Hauly e Rubens Bueno, por exemplo) para a disputa, resolvendo apostar suas fichas no ex-prefeito de Curitiba e, na ocasião, secretário estadual do Desenvolvimento Urbano, imaginando que a campanha vindoura seria uma autêntica guerra.

O convite para a secretaria também se deveu logicamente a Álvaro que exercia controle natural sobre o partido, elegendo-se a premissa que para ganhar a eleição a lógica impunha um candidato forte, persuasivo e preparado para encarar quaisquer adversários. Enfim, um candidato acostumado ao bateu, levou. Julgava-se que o homem era Roberto Requião, ainda com escasso trânsito na política, mas claramente movido pela impetuosidade típica dos que queriam transformar o mundo. Não foi por outro motivo que os colaboradores próximos do governador Álvaro Dias, a boca pequena, logo passaram a se referir ao colega recém-chegado como Muammar Kadhafi.

Eleito a duras penas, porque José Carlos Martinez, o Batatinha, foi um osso duro de roer e sucumbiu apenas no dia do segundo turno, Requião não concluiu o mandato e partiu para a disputa de uma cadeira no Senado, ganhou duas eleições para o governo e a nova vaga de senador até 2018, quando, afinal, estará mais ou menos com a idade atual do vice-rei do Maranhão e Amapá, José Ribamar da Costa Sarney.

A derrota sofrida pelo senador e seu mirrado grupo de seguidores na eleição para o diretório estadual do PMDB, fruto de tantos anos de mandonismo, serve para demonstrar a quase absoluta falta de sintonia com as lideranças do partido no interior, se é que ainda existe alguma, o desprezo pela formação de novos quadros e a atração de empresários, profissionais liberais e estudantes, entre outros grupos sociais, para a vida pública.

Tanto Requião falou no MDB Velho de Guerra, agarrando-se a um lema gasto pelo tempo e pela realidade contemporânea, pouco ou nada fazendo para manter em alta seu prestígio de líder nato, que suas palavras de ordem perderam-se no vazio e os que passaram a divergir da algaravia recheada de chavões decidiram unir forças para conquistar o comando do partido.

A estratégia lançada pelo ex-governador Orlando Pessuti e os deputados Luiz Cláudio Romanelli e Nereu Moura, figuras mais destacadas da virada de mesa, funcionou a contento. A diferença de votos entre uma e outra chapa apresentada aos delegados com direito a voto no sábado passado não foi grande, mas teve sabor amargo para quem se julgava e agia como dono do PMDB no Paraná.

A vitória do deputado federal Osmar Serraglio para a presidência do diretório estadual, cuja indicação foi avalizada pelo ex-governador Orlando Pessuti, afinal, capitão de longo curso na política que a poucos não surpreende pela habilidade de negociador e posições pragmáticas, foi sinal vigoroso da oscilação do equilíbrio de forças no partido. O grupo dissidente valeu-se da precariedade do adversário para tornar realidade, talvez, o mais contundente escorregão político da carreira do senador Roberto Requião.

A indicação de Serraglio por certo levou em consideração as muitas evidências do estilo conciliador do deputado, que, diga-se de passagem, tornou-se conhecido na relatoria da CPMI do Mensalão, pela firmeza e intransigência sempre que foi necessário bater-se pela integridade e significado da função política. Este foi o vantajoso handicap apresentado aos convencionais fatigados com as resoluções monocráticas de um comandante, que não conseguia ir além dos botões de sua desbotada túnica ou enxergar com as lentes mofadas de seu binóculo, o panorama desenhado além da paliçada.

Por outro lado, fala-se abertamente que a vitória da chapa liderada por Pessuti, Romanelli e Nereu Moura, foi construída com base no interesse pessoal do governador Beto Richa na eleição de 2014, com quem o PMDB marcharia em campo aberto. O raciocínio deriva da participação – até aqui isolada – de Romanelli no primeiro escalão do governo, esperando-se que em janeiro, na reforma do secretariado, o partido seja contemplado com duas novas secretarias.

Na minha avaliação, como sempre prejudicada pelos miasmas típicos do ambiente partidário, não consigo ver sequer um filamento de luz na citada proposição, tendo em vista que o presidente estadual do PMDB, Osmar Serraglio, dificilmente se prestaria ao papel de mero espectador de marchas e contramarchas, muitas vezes com a finalidade exclusiva de confundir a opinião pública. O perfil político e a práxis do deputado, a seu tempo, haverão de se contrapor à suposta veleidade que um grupo alimenta de atrelar o PMDB à candidatura de Beto.

Por outro lado, como privilegiado eleitor do partido daqui em diante, o próprio ex-governador Orlando Pessuti não estaria em posição confortável para referendar a ordem do brusco deslocamento da tropa, mesmo porque o PMDB é um dos partidos da aliança governista chancelada pelo vice-presidente Michel Temer, que já deu provas convincentes do desejo de permanecer como candidato ao cargo na chapa de Dilma Rousseff.  Ou de Lula? A interlocução entre o ex-governador e o presidente licenciado do PMDB nacional é muito boa, trunfo que o antigo extensionista da Emater-PR não seria estulto a ponto de dispensar.

Além disso, Pessuti tem compromisso moral e ético com a ministra Gleisi Hoffmann, virtual candidata do PT ao governo em 2014, pela simples razão de ter indicado o suplente da chapa petista ao Senado, o atual senador Sérgio Souza. Essa é outra carta preciosa na manga de um personagem muitas vezes tido como peixe fora d’água no ambiente espinhoso da política, mas que com gestos de cordialidade e tato vai escrevendo uma biografia que deixa muitos caciques no chinelo.

Portanto, é bem mais viável pensar que se o PMDB não apresentar candidato próprio em 2014, uma das probabilidades é indicar o vice na chapa de Gleisi.

Feliz Natal a todos os amigos e eventuais leitores desse espaço, se o calendário maia não nos meter em alguma esparrela nesta sexta-feira. Vade retro!

Uma ideia sobre “Panorama além da paliçada

  1. Wilson Bola

    Boa análise do Ivan. Mas vale um registro: em 1995 o Requião perdeu a convenção estadual do PMDB em circunstâncias semelhantes: foi derrotado pelo ex-governador Mário Pereira, que concluíra o mandato de Requião (91/94), que se afastara do governo para se eleger senador (Mário era o Pessuti de então).
    E o que aconteceu? Três anos depois Requião foi novamente candidato ao governo, só que derrotado pelo governador Jaime Lerner.
    resumo da ópera: poucos ainda toleram a arrogância, prepotência e insolência do Requião, mas o tipo é tão encardido que não dá pra imaginar que suas pretensões pra 2014 estejam totalmente descartadas.

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