6:39Quem é você, Samarone Dias?

Ilustração de Theo Szczepanski

por Rogério Pereira

É estranho descobrir que se está desaparecendo. Ou que nunca existiu. Mostro a carteira de identidade e explico que preciso fazer outra em breve. Não parece nada contigo, ela devolve. Mas eu já fui assim. O cabelo ainda é similar. A sobrancelha direita está erguida, assustada. Mesmo em ótimo estado de conservação (o documento), poucos acreditam que aquele menino sou eu. Sou uma fraude vagando pelos guichês de aeroportos e consultórios médicos. Já tive quatorze anos. Não havia marcas no rosto. A orelha de abano do lado direito é visível. Ainda não uso brincos. A tinta espalhada pelo polegar toma todo o espaço destinado às digitais. A assinatura é um emaranhado quase impossível de repetir. Entre os volteios da caneta sobressai um nome que não me pertence, que nunca me pertenceu. Deixei de existir há algum tempo. Mais precisamente no dia 21 de janeiro de 1973.

Após três dias de revolta nas entranhas da mãe, sangrei pelas suas coxas, direto para as mãos de Elza, a parteira. Morávamos em algum grotão de Santa Catarina, na divisa com o Paraná. Porcos, galinhas e pés de milho e feijão nos faziam companhia na vida rural. A avó paterna, que felizmente já morreu, vociferou: “Mais um diabinho no mundo”. Era noite de tempestade. Nasci amaldiçoado. Um diabinho magricela, um fantasma daltônico. Como estou desaparecendo, pouco importa. Maldição sem amaldiçoado não pega. E se ela estiver certa, vou encontrá-la no inferno. Lá, terei a oportunidade de me vingar. Não há inferno que redima os nossos pecados. Nem demônio que impeça algumas vinganças.

O pai montou no burrico e seguiu em direção à cidade mais próxima. Não tenho certeza de que nasci em 21 de janeiro. Sem a declaração de nascido vivo — aquele documento que a maternidade entrega aos pais para o registro dos filhos; a parteira poderia ter escrito num papel qualquer: “Nasceu vivo, sim; é um menino magricelo e daltônico, com alguns dedos dos pés grudados, meio anfíbio; e bastante assustado, mas que não sabe chorar”. Acho que a parteira também era analfabeta —, o pai amarrou o animal à porta do cartório de Galvão, em Santa Catarina. Contrariado, ditou ao escrivão: Rogério Pereira. Meu nome está ali grafado no papel sem o acento. Sou também uma paroxítona sem acento. Corrigi o erro ortográfico na tentativa de não desaparecer. Não deu muito certo.

O pai não desejava que o segundo filho se chamasse Rogério. Era preciso manter sua dinastia futebolística, mesmo sem nunca ter entrado num estádio ou assistido a uma partida pela televisão. Mantinha apenas a orelha grudada num radinho velho de pilha. Antes de eu nascer, já havia decidido pelo sonoro Samarone — craque do Fluminense e Flamengo nos anos 60 e 70. A mãe bateu pé e me tornei Rogério — que significa algo como lança famosa; e não combina nada comigo. Escapei da improvisada homenagem esportiva do pai. Meu irmão não teve a mesma sorte: Roberto Rivelino é a sua condenação. A ironia é que chuta com a direita e sempre jogou como goleiro. Se minha irmã tivesse nascido hoje, com certeza se chamaria Marta. Minha irmã está morta. Na lápide, o nome é esquisito e não significa nada: Rozelane. Roberto é aquele que brilha na glória e na fama. Quanta ironia! Pena que não tínhamos nenhum talento musical. Poderíamos formar o trio sertanejo Roberto, Rogério e Rozelane. Ou simplesmente Irmãos Pereira. Filho de pobre sempre sofre pela falta ou excesso de criatividade dos pais. Nossa família é um amontoado de equívocos.

Também não deveria ser Pereira. Meu verdadeiro sobrenome é Dias. A avó paterna — aquela que carinhosamente nos chamava de diabinhos a cada parto desesperado da mãe — registrou os filhos apenas com o seu sobrenome. Marcolina Pereira. Marcolina significa aquela quem vem da família de Marcus. Não cai bem à velha pestilenta que morreu escarrando no chão de nossa casa. Colocar apenas o seu sobrenome nos filhos era a vingança contra o marido — meu avô Pedro Batista Dias, que morreu bêbado numa valeta. Ele voltava para casa, engravidava a mulher e partia pelo mundo novamente. Não deixou pelo caminho sequer um sobrenome.

Em 2002, descobri que não sou de Galvão. Ao pedir uma segunda via da certidão de nascimento, ouvi do outro lado do telefone: “O seu registro foi levado para Jupiá. Você precisa verificar com o cartório de lá”. Em 1973, Jupiá era um lugarejo ao lado de Galvão. Hoje, são minúsculas cidades no Oeste catarinense. Galvão tem quatro mil habitantes. E três ou quatro ruas asfaltadas. Jupiá é menor: dois mil habitantes. E duas ou três ruas asfaltadas. Ambas têm igrejas imponentes. É preciso construir fortalezas contra o demônio. Em alguns documentos, sou de Galvão; em outros, de Jupiá. Tenho dupla cidadania catarinense. Não conheço nenhuma das duas cidades.

Samarone, o jogador de futebol, não se chama Samarone. Seu nome é Wilson Gomes. Ganhou o apelido na infância. A infância é uma prisão da qual não há fuga possível. Hoje, ele vive em Cascavel, no Oeste do Paraná. É engenheiro aposentado. Tem sessenta e seis anos. Eu tenho quase quarenta. Não nos conhecemos. Mas carregamos o peso do demônio nas costas. Ele, de maneira mais leve. Devido à cabeleira platinada da juventude, ganhou o apelido de Diabo Louro. Nelson Rodrigues o eternizou na frase: “Samarone faz jogadas de um virtuosismo, de uma beleza, inexcedíveis”. Até os quatro anos de idade, meus pais não cortaram o meu cabelo. Era longo e muito louro. Não há fotografias. Minha mãe garante que eu parecia um anjo. Mas acho que ela mente. Toda mãe considera o filho um anjo, mesmo quando a avó garante que o neto não passa de um diabinho de dedos grudados. Talvez a avó apenas quisesse nos aproximar dela no inferno. Nunca se sabe quais são as intenções de uma avó condenada à companhia eterna do capeta.

Nos próximos dias, farei uma nova carteira de identidade. Na foto, tentarei olhar para cima. Desviarei o olhar como na fotografia tirada para o primeiro documento em 1987 no Passeio Público. Sempre me intrigou o olhar para cima. Seria uma tentativa de alcançar Deus, pedir clemência e anular a maldição da avó? Não sei. Sei apenas que não serei mais de Galvão. Jupiá será minha nova origem. Ainda serei Pereira. Preferia ser Dias. Não lembro muito bem do meu avô Pedro. Ele morreu esturricado pela bebida quando eu tinha três anos. Meu filho tem hoje três anos. No sábado, na saída da apresentação de Natal da escola, um amiguinho o chamou de Pereira. Todos os colegas o chamam de Pereira, para evitar confusão com o outro Lorenzo, o Fernandes. Será que faria sucesso uma dupla musical Pereira & Fernandes? Acho bem difícil. Meus filhos carregam um sobrenome que não lhes pertence.

Deixo-lhes de herança um sobrenome que não é meu. E luto para que não herdem nenhuma maldição.

*Publicado no site Vida Breve (www.vidabreve.com)

Uma ideia sobre “Quem é você, Samarone Dias?

  1. Bittencourt

    De novo, um texto e tanto.
    Parabéns, Rogério “Samarone” Pereira “Dias”.
    Um grande abraço,
    Bitte

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