10:05Henrique da Guitarra, adeus

Era batata! No fim da madrugada, depois do percorrer um circuito de bares, tomando todas, que sempre tinha como penúltimo estágio o Kapelle, da querida Mara, a gente entrava ali naquela porta da Cruz Machado, quase esquina com a Alameda Cabral, para bater o ponto, como dizíamos. O álcool nos fazia trafegar por um universo paralelo que liberava deuses e demônios e nunca víamos ou sentíamos o fio da navalha por andávamos descalços e com os olhos injetados da amor e ódio. Mas ao atravessar ali, atraídos pelo som da flauta mágica, que era o trumpete do Saul, invariavelmente aquele menino grande que ficava num canto com sua guitarra nos olhava e parecia que tudo se encaixava numa normalidade que não era normal para nós. E digo nós porque, invariavelmente, durante boa parte dos anos 80, eu andava com dois fieis escudeiros, a quem nos apelidamos de “trio entorta rua”. O menino grande, cuja guitarra diminuía de tamanho em seu corpo, sorria como se nos abençoasse por termos chegado vivos ali – e o olhar era como de um anjo a nos envolver com um manto que, mais tarde, quando dali saíssemos, iria nos proteger até a chegada à segurança da cama onde desmaiávamos para voltar à rotina do dia seguinte. Músicos da noite, acredito, têm a capacidade incrível de enxergar nos bêbados equilibristas o lado iluminado que nos segura e, em muitos casos, nos protege e nos salva. Henrique foi embora do seu jeito e só um mês depois ficamos sabendo. Discreto. Tocava com a sabedoria dos que tem este dom que é conversar e transmitir a mensagem do que desconhecemos, mas tem muita força. Como nós, que frequentávamos a esquina do pecado e, quando a fome apertava, batíamos ponto ali do lado no Waldo -Picanha, a história dele era aquela que ele nos passava com a sua presença, com a sua sabedoria sem palavras, com sua arte musical. Ficamos sabendo agora que seu sobrenome era Rodrigues, porque naquele longo tempo de aprendizado sem escola, só com ensinamento da vida, nos interessava apenas entrar ali para ouvir as músicas, tomar as últimas e ser abençoados pelo grande amigo que ficava no seu canto tomando conta de nós todos. Amém.

Segue o obituário publicado no dia 27 de novembro no jornal Gazeta do Povo:

Parte da história da música curitibana, nas décadas de 60 e 70, Henrique participou enquanto tocava em grupos de tango e boleros, assim como de tchá tchá tchá, em casas noturnas de Curitiba. O gênero musical fez parte do seu repertório quando virou moda pelo intenso intercâmbio de profissionais da Argentina e Uruguai. Mas nunca esqueceu do samba. Em 1963, foi um dos primeiros músicos a obter registro na Ordem dos Músicos do Paraná. Tanto é que precisava andar com a licença especial para poder andar à noite, uma vez que tinha apenas 16 anos. Anterior ao movimento da Jovem Guarda, representou o Paraná, com os amigos Lápis, Lalo, Juca, Bráulio, Boião Fernandinho e Nelson Gorila, no Festival Brasil Canta no Rio, da Rede Excelsior de Televisão, em 1968. Ficaram em sexto lugar. E os ensaios ocorriam todos os sábados, quando Henrique tinha o encontro marcado na casa de Dona Mariquinha, a mãe do músico Lápis. A casa, nas Mercês, era considerada como centro de desenvolvimento musical da época. A partir de 1985, juntamente com o Saul Trumpete e Alvinho, fundou o Núcleo Musical de Jazz de Curitiba, aonde permaneceu até 1997 no Saul Trumpete Bar. Para a filha Aurora, o cenário musical da capital pode ser descrito pela trajetória do pai. Tocou em clubes como o Curitibano, Thalia, Barriqueiro, Bacacheri e Barigui. A grande maioria dos clubes, tinha piano e conjuntos formados por acordeon, violão, baixo acústico, bateria, pandeiro e sopros. Henrique também trabalhou em casas do Parolin como o Sobradinho, onde acompanhou o maestro Zé Pequeno. Também participou do Projeto O Samba e a sua Nobreza com Xangô da Mangueira e convidados. O último fim de semana de outubro foi o seu derradeiro porque o som do violão deixou de tocar. Deixa a viúva Zeneide, três filhas e quatro netos.

Dia 3 de novembro, aos 65 anos, de úlcera gástrica.

5 ideias sobre “Henrique da Guitarra, adeus

  1. Maringas

    Grande Henrique!
    A imagem que guardo é ele, sempre com ar tranquilo, no canto do Saul do Trumpete Bar, ‘perseguindo’ o tom de qualquer um que resolvesse cantar naquelas noites musicais e etílicas.
    Henrique da Guitarra; esse viveu em eterna harmonia!

  2. Zaga

    Uma gota no oceano, porém relevante:
    “tchá, tchá, tchá” fez, certamente, o Henrique consolar-se em ter ido tão cedo, para tristeza de seus amigos e admiradores.

  3. Jorjão

    Necessária, obrigatória homenagem ao turco Riad, que acolheu Henrique anos atrás e fez com ele inesquecível parceria nas noites do Ponto Final. Um foi esteio do outro. E no Jacobina, no almoço, do qual só soube, Henrique mandou bem. Mas fica a memória do Saul e do Riad. Grande guitarra (elétrica ou acústica), duas mãos, quatro. Sempre sereno, coadjuvante dando show delicado, eloquente. Henrique forévis. Era jazz. Deixa saudade.

  4. Tayco

    Parabéns pela brilhante descrição. Éra tudo isso e muito mais.
    Saudades das “Canjas” no Saul Trumpet, onde na madruga, reuniam-se os músicos de diversas classes p/ a saideira.
    Do mestre Henrique, nas longas conversas que tivemos, ele sempre solícito, com aquele jeitinho de criança grande, me explicava os meandros da guitarra.
    Quando recebia elogios, ele humildemente dizia: “Estou apreendendo um pouquinho”.
    Saudades…

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