7:15O imã e a fadiga dos materiais

por Ivan Schmidt

É difícil de aceitar, mas o eleitor tradicionalista de Curitiba – aquele que sempre decidiu pelos  “nossos” para prefeito – embora a tradição tenha sido quebrada com Cássio Taniguchi, nascido no interior de São Paulo e Beto Richa, natural de Londrina e, agora com o próprio Luciano Ducci, está sendo obrigado a conviver com a inusitada situação do surpreendente desempenho de Ratinho Junior na reta final da eleição para a prefeitura municipal.

Quando uso a expressão “nossos” estou me referindo necessariamente aos eleitos ou indicados para o cargo de prefeito de Curitiba nos últimos 50 anos, afinal um grupo de curitibanos da gema, entre outros, Ivo Arzua, Jaime Lerner, Saul Raiz, Maurício Fruet, Roberto Requião e Rafael Greca, sem deixar de incluir nesse rol os dois não curitibanos (Taniguchi e Beto Richa) tendo em vista a ligação umbilical com o grupo hegemônico da política curitibana.

É preciso também excluir desse grupo Maurício Fruet (indicado por José Richa) e Roberto Requião, eleito em seguida pelo PMDB, na hoje histórica e isolada vitória desse partido na capital do estado desde o retorno das eleições diretas. Desde então, o PMDB tem sido pouca coisa a mais que coadjuvante do processo eleitoral curitibano, colecionando sucessivos e memoráveis fracassos com Max Rosenmann, Maurício Requião e Carlos Moreira Junior.

Mesmo nas oportunidades em que o partido resolveu abrir mão da candidatura própria, optando pelo apoio a candidato de outro partido, o PT foi sempre a via preferencial, não se deu bem. Aliás, é o risco que corre também nessa eleição com Rafael Greca, que em nenhum momento conseguiu ultrapassar o quarto lugar nas pesquisas. Com um dado que me parece bastante próximo da realidade: seu declarado percentual de votos é patrimônio pessoal e não uma reserva propriamente dita do partido.

Então, é assim. Pela primeira vez em muitos anos existe a probabilidade real do eleitorado curitibano dar uma guinada no processo de escolha do novo administrador da cidade, dando preferência a um nome estranho ao círculo econômico, social e político que historicamente decide quem é quem nesse quesito. Nada contra a pessoa do atual prefeito Luciano Ducci, que também é curitibano, foi aceito pelo grupo mais pelo princípio da meritocracia que pelo aporte político que eventualmente pudesse acrescentar, tendo em vista sua filiação ao PSB, um dos inúmeros nanicos que no Paraná sempre buscou o abrigo do guarda-chuva do poder.

Além disso, o fato se agrava pela escassez de quadros competentes e politizados na maioria dos partidos, especialmente os mais expressivos, que acabam se limitando aos poucos nomes disponíveis mesmo arcando com o que em mecânica se chama fadiga dos materiais. Para lembrar uma realidade de poucas décadas, cada partido importante se apresentava à disputa com chapa própria. Hoje o partido mais importante (o que governa) atua como irresistível imã em relação às legendas ditas de aluguel, firmando para cada eleição quilométricas coligações com o único objetivo de aumentar o tempo do candidato no horário de propaganda eleitoral gratuita. Enfim, negócio que pode render avultados rendimentos, como costumam dizer os que não participam do butim.

Mas, afinal, por que Ratinho Junior é o fenômeno eleitoral em Curitiba, já detectado pelos grandes jornais do centro do país? Quem está declarando o voto nesse parlamentar federal (antes foi deputado estadual) com pouca visibilidade num Congresso manipulado por cobras criadas que dão nó em pingo d’água?

Antes um rápido comentário sobre as pesquisas, pois não há como abstrair o polêmico levantamento realizado pelo Instituto Datacenso com 5 mil eleitores, seguidos os parâmetros estabelecidos pela legislação eleitoral, no qual Ratinho apareceu com dez pontos percentuais acima de Ducci. A polêmica foi alimentada pelo número superlativo de entrevistados, a margem de erro de 1,5% para mais ou para menos, a diferença relativamente folgada do primeiro para o segundo lugar e, obviamente, porque a pesquisa foi encomendada pelo comitê do próprio Ratinho Junior. A assessoria jurídica de Ducci entrou em ação e depois de tentativa bisonha obteve autorização do TRE para a recontagem dos questionários (havia um pouco mais de 5 mil), esgotando-se a questão pelo conjunto de evidências de que os critérios legais foram seguidos um a um.

É difícil acreditar que um instituto de pesquisas poria em risco sua credibilidade, mesmo porque não tem como cliente único a campanha de Ratinho Junior, forçando a barra e fabricando resultados para ludibriar a opinião pública. O que está em jogo é o futuro de uma empresa, que agora assume também a responsabilidade de mostrar claramente que faz seu trabalho com correção e respeito à sociedade.

Então, quem está fazendo Ratinho avançar na preferência do eleitorado? Segundo a pesquisa Datacenso, majoritariamente eleitores das classes C e D, residentes nos bairros periféricos que confessam a intenção de colocar gente nova na administração da cidade. Nas últimas semanas um caudal de votos que engrossou com a desistência de grande número de eleitores de Gustavo Fruet, que também perdeu votos para Luciano Ducci, obviamente bem votado nas classes A e B. Pelo grande número de obras na maioria dos bairros, mormente na periferia, o prefeito também leva generosa fatia de votos desses moradores sendo, portanto, nesse terreno restrito que, possivelmente, será travada a batalha pelo segundo turno.

O sábio Salomão dizia nada vislumbrar de novidade debaixo do sol. Curitiba vai desmentir essa verdade milenar?

7 ideias sobre “O imã e a fadiga dos materiais

  1. Danilo

    como já pagou uma vez com a atual gestão, não vamos repetir esse erro denovo!
    ainda há tempo e espaço para mudança!

  2. Josias Heleno

    esse papo de “surpreendente desempenho de Ratinho Jr.” aí está tão furando quanto alguém que anota o resultado de um campeonato do futebol na primeira rodada do segundo turno…

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