7:36Sua excelência, o prefeito

Por Ivan Schmidt

Dentro de quinze dias, um a mais outro a menos, o cidadão habilitado a votar será chamado às urnas para cumprir o seu dever cívico. A frase, hoje abominável em todos os sentidos, era bastante comum em períodos eleitorais da época em que os bichos falavam e os homens andavam de cabeça para baixo.

Atualmente o voto obrigatório acaba sendo uma aporrinhação na vida do pacato cidadão, que, tenho certeza, preferiria bem mais estar na praia, consertando a cerca do quintal ou batendo uma bola com a patota no estorricado campinho da esquina.

Estão em disputa os cargos de prefeito municipal e vereadores e, a julgar pela impressão colhida das mensagens passadas pelos primeiros, provavelmente se entenda a pouca vibração popular em torno das campanhas. Afinal, o engessamento legal das manifestações públicas dos candidatos, limitadas a caminhadas, carreatas ou encontros em ambientes fechados não conseguiram substituir o impacto festivo dos showmícios.

Contudo, é preciso lembrar que os tais showmícios favoreciam apenas os candidatos mais bem aquinhoados pelas doações de campanha, aos quais não faltavam recursos para contratar artistas famosos a fim de garantir a presença do público. Uma distorção, na verdade, coibida pela legislação eleitoral que de certa maneira estabeleceu parâmetros igualitários para os candidatos mais ou menos abastados.

Não pretendo discutir o rigor com que a legislação atinge determinados candidatos, porquanto muitos abusos e privilégios foram cortados, mas apenas pontuar que por outro lado a mesma lei restritiva é extremamente liberal nas facilidades concedidas a pessoas que, imagino, teriam dificuldade para obter mero atestado de bons antecedentes, quanto mais o registro de uma candidatura.

Também é verdade que poucos políticos hoje em dia, por si sós, atrairiam público para seus comícios, mesmo porque a atividade política sofreu inúmeras transformações para pior, reduzindo a número ínfimo os cidadãos ainda dispostos a ouvir discurso de candidatos. E também pelo fato notório da precariedade de ideias e formas de verbalizá-las de muitos postulantes a cargos eletivos. Assim, resta aos candidatos se agarrar ao chamado palanque eletrônico, o horário eleitoral gratuito, no qual procuram convencer os eleitores de que suas propostas são melhores que as do concorrente.

Aqui se levanta outra preocupação, qual seja a imposição sobre o candidato do pensamento do pessoal de marketing na elaboração das falas, postura, tom de voz e até a cor da gravata que deverá usar nas gravações. A participação predominante desses profissionais nas campanhas é algo que ninguém mais discute, embora ainda não se possa medir exatamente quanto daquilo que o candidato diz é produto de sua inteligência ou outros escreveram para ele. Ao que parece poucos duvidam que a segunda assertiva é a mais acertada.

Nesse contexto generalizado de período eleitoral, mesmo admitindo que nem todos os candidatos agem da mesma forma, movem-se os principais postulantes à prefeitura de Curitiba, com a polarização entre Ratinho Junior e Luciano Ducci, os dianteiros seguidos por Gustavo Fruet. Ratinho (o grande azarão) e Ducci, favorecido pelo handicap de estar exercendo o cargo e ter sua candidatura encampada pelo governador Beto Richa, entretanto, continuam embolados com percentuais muito próximos nas pesquisas de intenção de votos. O único dado concreto é a persistência do empate técnico entre ambos.

Esse mesmo blog veiculou nota sobre a liberação de pesquisa feita pelo Instituto Datacenso com cinco mil eleitores, com margem de erro inferior a 1,5%, provavelmente trazendo informações definitivas sobre as tendências consolidadas para o primeiro turno e, quiçá, para o segundo. Suponho que os resultados sejam publicados até o final da semana. Se nenhuma modificação de vulto ocorreu ou foi detectada pelas investigações em andamento (Datafolha, Ibope, Datacenso e outras), por exemplo, a reação fulminante de Gustavo Fruet, a hipótese provável é que Ratinho e Ducci voltem ao partidor para nova largada.

Analistas sempre a postos nessas ocasiões doutrinam que Ducci e Fruet dividem os votos das classes A e B, mas o prefeito também belisca nas classes C e D, na qual Ratinho nada de braçada. Enquanto isso, Fruet tem evidente dificuldade para amealhar votos entre a população dos bairros periféricos ou entre os indecisos (10%), que na hora de teclar dificilmente vão optar em bloco por um único nome.

Uma saída espetacular para Fruet, habilitando-o ao segundo turno, seria a conquista de polpuda fatia de eleitores declarados do prefeito e, de quebra, pelo menos a metade dos eleitores de Rafael Greca, que são propriedade dele e não do PMDB. Dia desses se lembrou que Jaime Lerner fez isso na memorável campanha dos doze dias, embora na época a vitória tenha sido assegurada pela renúncia tripla (jamais vista em tempo algum) de Algaci Túlio, Enéas Faria e Airton Cordeiro, que mansamente entregaram a eleição ao arquiteto.

Curioso é que o candidato que até o inexplicável forfait dos três mosqueteiros, tinha amplas chances de vencer era o deputado Maurício Fruet. Expressionante, como costuma escrever o iluminado mentor desse blog.

A história que geralmente ocorreu como tragédia pode se repetir como farsa. Caso Gustavo vá para o segundo turno e, faca nos dentes, ganhe a eleição, será a glória!

9 ideias sobre “Sua excelência, o prefeito

  1. alzir lima

    Seria a salvação da gestão na prefeitura.
    Gustavo poderia colocar nos trilhos as barbaridades atuais que acontecem na Prefeitura e Estado.

  2. Antonio Siqueira Ferreiros

    Eu acho que o Gustavo vai repetir 2010 e surpreender os institutos. Eu acho que ele vai ser como o Rubens Bueno em 2004, pra quem os institutos davam 10% e acabou tendo 20%. O Gustavo vai surpreender. Escreve aí. E olha que não sou eleitor ou defensor dele…

  3. Motoqueiro Infernal !!!

    Há muita balbúrdia em torno destas pesquisas encomendadas… mas acredito que a pontuação de Fruet deve ser bem maior do que aparece. O problema é que, visivelmente afetam o candidato “prejudicado” …

  4. Itamar

    Se Gustavo ganhar, será a primeira eleiçao vencida de forma honesta. Nesse caso, o dinheiro perderia para a qualidade de propostas e de trabalho. #12 ainda dá!

  5. Ivan Schmidt

    Prezados leitores, peço desculpas pela péssima construção da última parte do terceiro parágrafo. Na verdade, o que tentei explicar é que a legislação eleitoral, ao proibir os showmícios engessou as manifestações públicas dos candidatos, afastando-os da população.

  6. Helenna

    Se o Gustavo não é tão relevante e tá com tão poucos (16%…) por que razão a concorrÊncia cai matando geral? Qualé? Pensa q eu sou burra ae?

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