5:51Só a maldade leva ao sucesso

por Célio Heitor Guimarães

Jaime Stivelberg, advogado à moda antiga e grande figura humana, reservava um lugar especial na biblioteca de seu escritório para um livrinho que ele muito amava. Fora-lhe presenteado pelo desembargador Aurélio Feijó, outra saudosa figura de enorme envergadura, e isso certamente contribuiu para o amor do Jaime pelo pequeno volume.

Pois em homenagem a ambos, Jaime e Aurélio, que eram encarnações do bem e que deixaram história e muita saudade na passagem por este mundo, fecho a linha de pensamento que venho expondo aqui – segundo a qual no Brasil a decência não compensa –, citando algumas lições presentes naquela edição, intitulada “Palavras Cínicas” e escrita por um certo Albino Forjaz de Sampaio:

Da Primeira Carta: “Aqui, para triunfar, é preciso ser mau, muito mau. Sê mau, cínico, hipócrita e persistente que vencerás. Serás aclamado, respeitado, invejado. Ri do Bem e da Virtude, da Alma e do Sentir. Ri de tudo, que é preciso que rias. Abafa um protesto com um sorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor com uma praga.”

“Não ames nem creias. Todo homem que ama é homem perdido e todo aquele que crê nunca será ninguém. (…)

“Lembra-te que o ódio dá mais prazeres que o Amor. “Se és bom, serás ridículo; se és mau, serás temido. “Ou serás vencido ou vencedor. Se vencido, esperam-te todas as humilhações, desde o desprezo até a compaixão. Se vencedor, todos os triunfos, desde o respeito ao Capitólio.”

Da Quarta Carta: “Aquele monte é a Ambição de Subir, de que fala Vieira. Atrás, pela riba acima, numa escalada vertiginosa, aparece uma maré cheia de cabeças ululantes, estranguladas pela ambição, gente correndo, empurrando-se, pisando os que ficam, agarrando-se de pés e mãos, como se após viessem também correndo numa perseguição fantástica as ondas de um novo dilúvio.

“Todos daquela multidão ávida querem ser os primeiros. (…) O caminho que na vida leva ao triunfo é uma cena medonha que mais parece a fuga de uma derrota. (…) Não há trégua, mas há descanso. Cada um vigia sempre o seu vizinho, espreita se ele cai e tripudia, espreita se ele sobe e inveja-o

“Por cada um que tomba, avançam mil. Trava-se um combate em que o mais cruel, o mais forte, o mais canalha, é o que triunfa. Nada de piedade nem de compaixão. Se não esmagares, serás esmagado. Não há tempo de olhar, nem de pensar sequer. Avançar, seja como for, custe o que custar.

Da Última Carta: “Andei todos os pontos cardeais da Vida. Conheço todas as falas, sei a forma por que se é canalha em todas as línguas. Subi onde podia subir, desci aonde não podia descer mais. Sei o preço por que um homem se vende e uma mulher se despe em todas as moedas.

“Do meu nome não sei. Sou pária eterno, o eterno sofredor, o que padece, o que odeia. Sou só no mundo e abandonado. Não conheço dedicações, nem carinhos, nem amores. E, como eu, há milhares de criaturas para quem o céu é ermo, a terra é erma, é ermo o mar. Envelhecem entre a multidão com o seu rancor de famintos e oprimidos. (…)

“Vi como sucumbem os valentes e como morrem os covardes e achei em ambos a mesma morte. Vi que tudo era pó e nada mais. (…)

“Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a tua consolação quando o mundo te fizer chorar.”

Nem Maquiavel fora capaz de tais conclusões. Lembram-se dele? Nicolau Maquiavel, historiador, diplomata, filósofo e político italiano, em cuja obra mais famosa, “O Príncipe”, aconselha os governantes a manter o poder absoluto, mesmo que tenham que ser desleais, traiçoeiros, manipuladores das pessoas e violentos. Maquiavel estava apenas convencido de que “o homem que tenta ser bondoso todo tempo está fadado à ruína entre os inúmeros outros que não são bons.”

Já Albino Forjaz de Sampaio, um nome quase esquecido hoje em dia, era jornalista, escritor e crítico social, membro da Academia de Ciência de Lisboa e escreveu o seu “Palavras Cínicas” no longínquo 1905… – não se sabe se pensando em Portugal de então ou já no Brasil. O certo é que o livro foi um dos mais vendidos no Século XX, com mais de 40 edições. Também é certo que o cenário que ele pinta tem muito da Terra de Pindorama, e muita gente entre nós, especialmente na política e no poder, tem levado a sério as lições de Albino.

4 ideias sobre “Só a maldade leva ao sucesso

  1. Jodicley Schinemann

    Pois ontem ainda pranteamos Ivo Arzua q foi e será sempre lembrado como um Homem em seu tempo,além do tempo,as perdas são tantas,q acreditar nos seres humanos está se tornando uma aposta muito alta.Temos um governador q na época em q seu honrado pai vivia não conseguiu 1775 votos para vereador em Curitiba,e hoje faz campanha para ACMNeto em Salvador…

  2. antonio carlos

    O ditado popular não diz tal pai tal filho? E que quem sai aos seus não degenera? Talvez daí se explique porque Pindorama é o que é, desde os tempos imemoriais da Colônia, Império e República. ACarlos

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