8:19A legenda negra do Contestado

por Ivan Schmidt

“(A história) termina bem para os que ganham a guerra, mas mal para nós que a perdemos. Ninguém fez sequer um gesto de agradecimento a nós que lutamos pela liberdade”. Javier Cercas (Soldados de Salamina)

Em bom momento, o centenário da Guerra do Contestado (1912), a JM Editora entrega ao público mais um livro do jornalista Milton Ivan Heller, que nos últimos anos tem se dedicado à pesquisa de temas relevantes para a recomposição da historiografia paranaense, entre outros, a passagem da coluna Prestes por nosso território, a influência do nazismo no período anterior à Segunda Guerra, a resistência política ao golpe de 1964 e, agora, um livro fartamente documentado sobre a guerra da irmandade cabocla contra os herdeiros das sesmarias logo respaldados por forças policiais e militares nos sertões do Paraná e Santa Catarina.

Milton Ivan trabalhou com esmero para traçar um retrato compreensivo da história remota de ambos os estados, lembrando a gênese das capitanias hereditárias estabelecidas pela Coroa portuguesa no Brasil apenas 30 anos depois da descoberta. “O vírus do latifúndio, incluindo fazendas com área superior a determinados países, como Holanda, Portugal, Dinamarca, Bélgica e outros”, explica o autor no recente lançamento A atualidade do Contestado, cuja leitura é altamente recomendável não apenas a historiadores, mas a todos os interessados em conhecer essa autêntica legenda negra.

Aos poucos transformados em pequenos déspotas, os donatários foram igualmente reconhecidos como os primeiros senhores de terras no Brasil, sendo seus herdeiros e descendentes honrados séculos depois com a concessão de patentes da Guarda Nacional, criada em 1831, na regência do padre Diogo Antonio Feijó. Os coronéis do sertão, proprietários de extensas áreas, tinham o direito de armar suas próprias milícias integradas por filhos ilegítimos, afilhados, agregados, peões e capangas, que impunham a lei nas áreas de sua dominação.

É desnecessário acrescentar que a Guarda Nacional não apenas foi reconhecida, como também melhor organizada pela recém-proclamada República. O historiador catarinense Nilson Thomé citado por Milton Ivan lembra que “todo o poder” foi atribuído aos grandes fazendeiros que “influenciavam a política administrativa e decidiam eleições”, gerando o chamado regime do compadrio.

Analisando em profundidade a questão dos limites entre o Paraná e Santa Catarina, abstraindo sua acendrada vocação paranista, o escritor Milton Ivan Heller fornece aos leitores de A atualidade do Contestado, um panorama poucas vezes observado em obras que tencionam dar uma contribuição à verdade histórica, mesmo que o distanciamento no tempo e a precariedade da documentação de época constituam o mais sério empecilho para o historiador moderno.

Todavia, não é inteiramente justificado considerar papeluchos, conversa fiada ou meros esbulhos os inúmeros acordos, tratados, alvarás e quetais que ao longo dos séculos acabaram se transformando em marcos no estabelecimento dos limites entre os dois estados. Seria impossível imaginar que os formadores desses dois atuais gigantes da Federação, nos idos dos séculos XVIII e XIX, tivessem recursos técnicos e mesmo conhecimento de geografia física suficientes para aclarar pormenores de não poucas situações conflitantes. A justiça é feita, no entanto, quando o autor proclama que “felizmente tudo é Brasil”.

O pano de fundo fornecido pela história eivada de episódios relativos à posse da terra e formação de autênticos feudos nos campos de Curitiba e no vasto planalto catarinense, denominado pelos raros habitantes de Serra Acima – onde eram abundantes a criação de gado e as reservas de erva-mate, pinho e outras madeiras nobres – necessariamente deságua na trajetória preponderante de três monges, os dois primeiros conhecidos como João Maria e o terceiro que se dizia chamar José Maria, beata reencarnação do curandeiro anterior encantado nas cercanias do Taió Grande.

Sugere Milton Ivan que “os três monges apareceram em momentos críticos da história do nosso país. O primeiro em meados do século XIX, pouco antes do término da Guerra dos Farrapos, na época de uma grande agitação liberal; o segundo, em meio à Revolução Federalista, nos anos próximos à abolição da escravatura e do advento da República; o terceiro em 1912, quando a República velha incentiva a imigração e a construção de ferrovias, com a concessão de terras povoadas por camponeses pobres, que praticavam uma agricultura de subsistência e ficaram sem condições de alimentar seus familiares”.

É patente a aceitação das formas populares da religião ensinadas e praticadas pelos monges por sertanejos abandonados à própria sorte, especialmente de José Maria (Miguel Lucena de Boaventura), desertor da força policial localizada na longínqua vila de Palmas após ter deflorado uma jovem. Reaparecendo em Campos Novos, no estado vizinho, José Maria foi convidado a mudar-se para o vilarejo do Taquaruçu, nos termos de Curitibanos, bafejado por seus pretensos dons de cura e a prédica do iminente aparecimento do exército encantado de São Sebastião.

A principal autoridade do município, coronel Francisco Albuquerque, agastou-se com a presença do monge nas terras de seu maior desafeto político, o igualmente coronel Henriquinho Almeida. Muitas famílias que haviam perdido suas reduzidas posses começaram a se ajuntar em torno do monge. Não demorou e o constrangimento policialesco reclamado por Albuquerque ao governador Vidal Ramos obrigou o monge a se retirar para o Irani, onde tinha conhecidos e amigos dos velhos tempos.

Enfim, esse foi o estopim da Guerra do Contestado, pois a notícia da presença de José Maria no Irani logo chegou a Curitiba (na época a região pertencia ao Paraná). O governador Affonso Alves de Camargo ordenou o deslocamento de um pelotão da Polícia Militar, sob o comando do capitão João Gualberto, com o objetivo de prender o monge e seus seguidores. Gualberto anunciou antes da partida para Palmas que traria o homem amarrado, exibindo as cordas que mandara acrescentar à matalotagem da canhestra expedição militar.

O primeiro confronto da guerra ocorreu no faxinal do Irani e durou alguns minutos, no amanhecer do dia 22 de outubro de 1912. Milton Ivan relata que ali José Maria morreu “e foi enterrado embaixo de uma touceira de palma do campo, em uma sepultura improvisada, coberta com uma tábua solta, porque os crentes acreditavam que o monge ressuscitaria”. Morreu também em combate o comandante da tropa paranaense, assim como vários soldados enterrados em vala comum ao lado dos jagunços, num local logo conhecido como a sepultura dos 21. “Um pouco mais adiante está o cemitério do Irani, onde esteve o corpo do capitão João Gualberto antes de ser transladado para Curitiba”, acrescenta o autor.

Mais ou menos um ano depois a fagulha que parecia extinta novamente faiscou no Taquaruçu, atiçada por novos propagadores da fé no profeta José Maria. Muitos redutos, os quadros santos, foram espalhados no sertão de Serra Acima e milhares de caboclos se engajaram na guerra santa. Quando os chefetes estaduais sentiram o peso da derrota vergonhosa, apelaram para o governo federal sob a alegação perniciosa que a verdadeira intenção dos fanáticos era a derrubada da República.

No auge do movimento que durou até o início de 1916, cerca de sete mil homens do exército haviam sido transferidos para a área do conflito, sob as ordens do general Setembrino de Carvalho, o chefe militar que anexou a seu currículo a vitória no conflito do Contestado, o que lhe valeu pouco tempo depois o cargo de ministro da Guerra.

O livro de Milton Ivan Heller, além da gama de informações históricas entrelaçadas num imenso painel que resultou na Guerra do Contestado, tão-somente um dos muitos episódios da coleção de descalabros da vida nacional, fornece uma visão realista do processo de poder no país.

3 ideias sobre “A legenda negra do Contestado

  1. Peixotinho

    A xenofobia do paranaense começa por aí, não se estuda a nossa história e não dão valor a ela. Alguém estudou a História do Paraná no ensino fundamental????Os catarinenses e gaúchos estudam a deles, já na creche.

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