9:30É ruim. E se for?

por Ruy Castro

O cinema brasileiro já produziu 27 filmes baseados na obra de Nelson Rodrigues, 21, na de Jorge Amado, e sete, na de Lucio Cardoso. Não se sabe onde estão muitos desses filmes nem em que formato ou em que condições. É provável que, de outros, já não exista o negativo ou uma cópia razoável em 35 mm. É parte da cultura brasileira se decompondo, abandonada.

Nelson, Jorge e Lucio estão comemorando centenário em 2012, e há anos que já se sabia disso. Um programa executado com antecedência pelo Ministério da Cultura teria feito com que tal acervo chegasse reunido e restaurado ao ano desses centenários e permitisse a instituições culturais a realização de mostras, festivais ou retrospectivas. Imagine os ganhos, até políticos. Mas ninguém se mexeu –se é que se teve a ideia.

Nesta quarta-feira, em mesa promovida pelo Sesi-SP no ciclo “Nelson Rodrigues 100 Anos”, o cineasta Neville d’Almeida estendeu a situação a todo o patrimônio cinematográfico brasileiro. Seu próprio filme “A Dama do Lotação”, de 1978, baseado num conto de Nelson e que arrastou 6,8 milhões de espectadores apenas na estreia, até hoje não está disponível em DVD. E olhe que, por quase 30 anos, foi a segunda maior bilheteria do país.

Dir-se-á que boa parte da filmografia nacional é “ruim”. E se for? As chanchadas da Atlântida, em seu tempo, também eram consideradas o fim. Hoje atraem estudiosos que as veem como um tesouro de números musicais e com valor de documentário, por terem sido, quase todas, filmadas nas ruas. Ainda vale o paradigma de Henri Langlois, fundador da Cinemateca Francesa, às vésperas da ocupação de Paris pelos alemães, em 1940. Ele decretou que não havia filmes “ruins” –todos mereciam ser protegidos.

Dir-se-á também que restaurar filmes é um processo caro, e que não há dinheiro para isso. Há, sim.

*Publicado no jornal Folha de São Paulo

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