17:29Acorrentados

de Paulo Mendes Campos

Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.

Publicado no livro “O Anjo Bêbado”

Uma ideia sobre “Acorrentados

  1. Peixotinho

    Zé, chegou agora poe e-mail e achei interessante.

    PORQUE VOCÊ ESCREVE SOBRE POLÍTICA?
    por Aramis

    Essa pergunta foi feita a mim por um pastor que queria saber qual era o motivo dos meus artigos focarem muito a política. Respondi a ele que primeiramente um cristão deve estar envolvido com a sua sociedade participando ativamente dela buscando sempre fundamentar princípios éticos- cristãos em todas as áreas sociais inclusive na área política que é onde as decisões são tomadas para o bem ou para o mal. Disse a ele que a democracia dá-nos o direito de expressarmos nossas opiniões livremente e que o pastor tem um compromisso com a sua cidade e não somente com a sua igreja, disse que falando sobre política tendo sempre nos meus textos uma base bíblica eu estava anunciando verdades de Deus para as áreas vitais da sociedade.

    Lembro-me que disse a ele que se o princípio de se fazer política não passar sempre pelo crivo da ética a política será perversa, oportunista, nociva e maligna, porque não será uma política para o serviço ao próximo e sim para benefícios estritamente pessoal. Lembro-me que disse ao pastor que a política tem que ser sinônimo de serviço a Deus e ao próximo e não um modo de enriquecer ilicitamente, que é o que infelizmente a maioria faz. Ele me perguntou se eu não tinha medo de escrever sobre um assunto tão perigoso como esse, respondi que não tinha medo nenhum, porque é dever de todo cidadão cobrar dos homens públicos seriedade e transparência na administração do dinheiro que vem do povo, disse a ele que ninguém pode viver sem ser fiscalizado, sem ser confrontado, sem ser avaliado, a crítica é algo construtivo quando se faz sem interesses pessoais, quando se faz pensando no bem da coletividade, falei que escrevia e escrevo como um idealista que sonha com uma cidade muito melhor do que essa que estamos nela.

    Disse a ele que não tinha vínculo político com ninguém, que não sou financiado por ninguém, que ninguém me paga para escrever o que escrevo, disse que vivo do meu salário de pastor e que escrevo como um pastor- cidadão indignado com o que alguns homens públicos fazem nas suas administrações. Tudo aquilo que causa opressão ao próximo tem que ser denunciado, disse ao pastor, não tem cabimento arrecadarmos milhões todo mês e vivermos na miséria, falta amor e compromisso por essa terra, o silêncio da classe média me deixa muito triste, a omissão das pessoas de bem me deixa perplexo, enquanto cada um ficar cuidando só daquilo que é seu, a cidade continuará recebendo de braços abertos aventureiros que não tem o menor vínculo com o município e que usa e abusa dele.

    Pastor, os nossos jovens estão morrendo assassinados e nas drogas, as nossas crianças estão sendo vendidas para a prostituição, as nossas escolas estão virando redutos de traficantes, não existe um projeto de ressocialização para a nossa juventude, o índice de jovens que fica o dia inteiro ocioso é alarmante, a corrupção impera por aqui, o empreguismo eleitoreiro sustenta muita gente em casa criando com isso uma dependência perversa. A coisa está tão feia que não existe renovação política, os candidatos são os mesmos da eleição passada, isso mostra a falência política em que vivemos, as comunidades estão entregues a própria sorte, não recebem nenhuma proteção e incentivo, vivem expostas a violência, a roubo, a assassinatos, a perversão sexual, e ninguém faz nada.

    È por isso pastor, que eu escrevo sobre política, escrevo porque creio na ação de Deus, escrevo porque fico indignado com o que estão fazendo nessa terra, escrevo porque sei que um dia esse quadro vai mudar, escrevo porque tenho fé que quem tem a última palavra sobre a nossa cidade é Deus. Que Ele nos abençoe para vivermos dias melhores!!!

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