9:04Clodoaldo e os piás na estofaria

por Sergio Brandão

Só mais tarde fui descobrir que todos são “piás” para o Clodoaldo. Qualquer pessoa da sua relação é piá. Expressão típica curitibana, mas que só fica boa na boca de alguns. Piá, mesmo que não seja o menino que supõe, deixa a relação mais íntima quando se trata de marmanjo para marmanjo. O Clodoaldo é um dos que podem usar o “piá” em qualquer situação. “Piá” orna com o tipo do Clodoaldo.  Um cara baixo, gordinho pançudo, cara simpática daquelas que parece sempre sorrir. Frio ou calor tá sempre de camisa de manga curta e muito agitado, tão agitado que esta talvez seja a maior marca da personalidade do Clodoaldo, depois do “piá”, claro. É uma agitação diferente. Daquela parecida de chegar na porta do banheiro e encontrá-la fechada. Este é o Clodoaldo. Assim é o Clodoaldo,  um empresário do ramo da estofaria que veste sempre camisa de gola, mas sempre com os dois botões da barriga abertos. Conheci o Clodoaldo pelo telefone. Foi logo me chamando de “piá”. Liguei por indicação de um amigo dele que conheci quando procurava por um estofador. Piá pra lá, pia pra cá, combinamos finalmente de nos conhecer. Clodoaldo foi em casa no dia seguinte fazer o orçamento do trabalho que eu precisava. Claro que chegou atrasado e esbaforido – “Desculpa pelo atraso, piá”. Confesso que os primeiros “piás”, os do telefone, me pegaram de surpresa, mas este, do primeiro encontro, achei simpático. E assim começou a nossa história. Dois dias depois Clodoaldo reaparece com seu parceiro que até agora não sei o nome. Um magricelo comprido, metido a engraçado, muito provavelmente motivado pelo Clodoaldo. Mas o magricelo foi mero coadjuvante. Boa gente, mas todas as cenas seguintes não precisavam dele, a não ser para também ser chamado de “piá”. Os dois começaram a desarmar o sofá-cama para carregá-lo numa camionete que mais parecia aqueles carrinhos de brinquedo, que a gente vê na praia, vendendo churros, os Twingo. Era muito pequeno para tanto sofá, mais o Clodoaldo e seu piá lá dentro. Claro que a cena dos dois desmontando o sofá teve sua graça. O sofá despencou umas três vezes no pé do Clodoaldo. Uma dezena de parafusos e encaixes foram suficientes para botar humor na operação. Curioso é que em nenhum momento me passou pela cabeça que tinha entrado numa fria contratando o serviço do Clodoaldo. Tudo combinado, tecidos escolhidos, o sofá sai de casa e pela janela aprecio a dupla ainda brigando com ele, agora na calçada. Dois dias depois, Clodoaldo e seu “piá” ainda tinham uma tarefa a mais comigo. Mais um  sofá e ainda uma poltrona para reforma que estavam na casa de minha mãe.  Foi naqueles dias de muita chuva da semana passada e retrasada. Foi tudo dentro do que se pode chamar de normalidade. A operação só se complicou um pouco quando o sofá teve que sair da edícula e ser carregado até o “carrinho de brinquedo ”, debaixo de muita chuva. Depois de alguns escorregões, grama molhada, poltrona escapando da mão, descubro que Clodoaldo ainda tinha um vocabulário vastíssimo de palavrões para me oferecer. A certa altura o piá, companheiro de Clodoaldo, lembrou que eles tinham no carro um plástico grande que trouxeram exatamente pensando naquela situação. Mas, a esta altura, o sofá todo molhado não precisava mais de proteção da chuva. Como num passe de mágica, Clodoaldo mexe daqui e dali e mais uma vez me surpreende conseguindo colocar o sofá no carrinho de churros. Se despede com o clássico “piá” e o reencontro aconteceu 20 dias depois. Me liga dizendo: “O teu trabalho ficou lindo piá. Quando posso entregar”? Serviço sendo entregue, vejo que de fato o sofá maior, que era amarelo e ficou preto,estava mesmo muito bonito. O difícil era a operação da montagem, mas me chamou atenção o sofá pequeno, que não precisava de montagem. Foi descarregado na sala e percebo que ele ganhou dois braços que não tinha, além do tecido que não sabia bem ao certo se era aquele mesmo. Como o Clodoaldo estava envolvido com a montagem do sofá maior, perguntei ao “piá” se aquele sofá, o menor, era mesmo o meu? Seguro, ele me responde que sim. De fato se parecia, mas não era. O “pretinho” que me acompanha desde os tempos de solteiro, eu conhecia bem. Tive que importunar o Clodoaldo entretido com a montagem do maior. Vejo Clodoaldo com sangue escorrendo pela perna. Levou um “coice”, como disse ele, de uma das molas do sofá. Aí eu não sabia se socorria o Clodoaldo ou reclamava meu sofá. Continuei minha exposição sobre a tese do braço do sofá, que era o que diferenciava o meu sofá “pretinho” daquele que Clodoaldo me entregava. Confusão feita ele senta no “pretinho” e diz olhando para seu parceiro “Piá, fizemos cagada. Este sofá é do Robson”. Ligou para a estofaria e pediu para falar com o Aílton. Clodoaldo ainda sangrando na perna faz três perguntas ao Aílton, que definitivamente confirmam que aquela sofá que me entregavam era mesmo do Robson e o meu estava na bancada sendo montado por quem estava do outro lado da linha. Mas com tecidos trocados. Clodoaldo ordena que Aílton parasse imediatamente tudo e que logo estariam lá para ver o que fazer. Se desculpou comigo algumas vezes, todas elas com o “piá” abrindo a frase. Se o Clodoaldo mentiu uma vez, foi numa destas frases, quando disse que aquilo nunca tinha acontecido. A confusão de troca de cores, tecidos e sofás e de donos de sofás me pareceu fazer parte da rotina dele- e do Piá. Se comprometeu comigo de me entregar o meu verdadeiro sofá, o “pretinho”, dois dias depois. Foi o que aconteceu. Quarenta e oito horas depois recebo o meu ex -pretinho, agora rajado. Na entrega Clodoaldo ainda precisa de ajuda com seu carrinho de brinquedo, que ficou enviesado na calçada (alta) e perdeu a tração na roda traseira. Eu, o Piá, e mais dois pedreiros solicitados na casa ao lado, precisamos subir na carroceria para fazer peso e finalmente colocar a roda traseira em contato com o chão. Sofá entregue, se desculpa mais uma vez e antes de ir embora levanta a barra da calça para me mostrar um enorme curativo feito na perna machucada. O “coice” da mola custou três pontos na canela de Clodoaldo. A estofaria do Clodoaldo fica na Brigadeiro Franco, 1215. Se chama ESTOFARIA EXCLUSIVA. Passa lá pra conhecer a figura.

3 ideias sobre “Clodoaldo e os piás na estofaria

  1. Emerson

    Ótimo texto. Passo sempre na frente da estofaria. Fiquei curioso de conhecer o piá! Vou parar lá dia desses.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>