10:46“MMA” no restaurante

por Sérgio Brandão

O cara ganhava tamanho pra cima, pros lados, pra frente e pra trás. Mas ali dentro daquela cabeça tinha uma criança, daquelas que conheci na minha infância. De briga no pátio do colégio, de briga na calçada, no campinho de futebol. Deve ser mais um daqueles da época, que ficou congelado no tempo. Um pouco pior. Porque usa os requintes de crueldade dos dias de hoje para continuar brigando na rua. E ameaçando as pessoas. Hoje ele não chama você pro “ tapa”, como acontecia antes, na inocência da minha infância. Ele chama você para um “MMA”, como disse o brutamontes que gostou tanto da minha cara que me propôs uns abraços lá fora do restaurante. O medo foi maior que qualquer outro sentimento. Com a comida ainda entalada na garganta, quanto mais eu ignorava seus convites, mais ele se irritava e me provocava. A cena de exibição de sua musculatura também foi vista por todos que tentavam entender o mal entendido. Um leve esbarrão na passagem por ele, que estava na fila, foi o suficiente para deixá-lo irado, desequilibrado e com muita vontade de me bater. Ele não queria o meu pedido de desculpas, mas a minha concordância para uma briga daquelas de cinema, dentro do restaurante, com mesas e cadeiras voando para todos os lados. Olhando bem para o sujeito, era nisso que eu – e provavelmente o resto do restaurante, imaginava que estava prestes a acontecer. O rapaz perde completamente qualquer razão que poderia ter diante da minha recusa pela briga. Isso durou uns 15 minutos. Em algum momento achei melhor nem olhar mais para ele. Pensei que poderia encarar aquilo como provocação. Sem saber direito o que fazer, funcionários do restaurante, percebendo a minha inércia e a exibição e força do menino, decidiram se unir (sim unir, porque ninguém sozinho daria conta daquilo tudo) e pediram gentilmente para que ele se retirasse do restaurante. Aos poucos foi sendo tirado de perto de mim e colocado cada vez mais longe. Sem saber direito o que fazer, me sentei , baixei a cabeça e pedi em oração para que aquilo terminasse logo. Me recomponho, levanto a cabeça e olho pela janela. Surge a fera enquadrada naquela moldura satânica. Me ameaçando novamente, mais enfurecido ainda. “Te marquei, te pego aqui fora, daqui você não passa vivo”, foram algumas das gentilezas que ouvi. Desisti do almoço e todos os outros clientes também pareciam fazer o mesmo, tamanho foi o susto e o medo que naqueles 15 minutos tomou conta de mim, não sei se do resto do pessoal também. Tentei retomar o almoço, mas não consegui. Comecei a pensar como poderia sair vivo daquela situação? Enquanto isso, o rapaz ainda enfurecido passava pela janela apontando para mim, com novas ameaças. O pavor passou a ser o sentimento seguinte. Aos poucos comecei a receber a solidariedade de todos. Isso me deu força. Me recuperei e decidi chamar a polícia, que esperei por mais de um hora – e não apareceu. Fui resgatado pelo meu cunhado Ronaldo. Pelo telefone combinamos uma estratégia para atravessar a calçada, entrar no carro e sumir dali. Depois de mais alguns minutos consigo finalmente sair sem nenhum arranhão. Nunca gostei de MMA, UFC, apenas por opção. Nada pessoal, porque sei e conheço muitos profissionais da área que vivem dignamente disso e passam muito longe de comportamentos imbecis como este. Mas quem sabe seja bom mais uma vez abrir o olho com a formação de gente como o “fortão” do restaurante. É que muitos já se machucaram com isto, e pelo visto muitos ainda vão se machucar.

2 ideias sobre ““MMA” no restaurante

  1. TORCEDOR!

    Meu Deus, que cara medíocre! aposto que se largar ele numa academia de verdade, apanha, e volta chorando para casa!
    Lutador de verdade, profissional, não age assim!

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