6:56Lembrem-se de Orwell!

por Célio Heitor Guimarães

“Expressionante!” – como diria o nosso sábio Zé Beto. Ou, então: “Este é o Brasil que quer se levar a sério” – como desabafou o mesmo ZB na tarde de ontem neste blog. Há coisas que só acontecem na política brasileira. Fernando Collor, aquelle, com assento e voz ativa na Comissão de Ética do Senado Federal! E mais: com a velha faccia aterrorizadora de “caçador de marajás”, olhos esbugalhados de desatinado, expelindo golfadas de ética, moral e decência!… Fosse este país sério, elle estaria recolhido em cárcere privado.

E a foto que ilustrou a primeira página dos jornais brasileiros nessa terça-feira? Lula foi à casa de Paulo Maluf e, entre sorrisos de cumplicidade e apertos fraternos de mãos, selou com o anfitrião – procurado pela Interpol, FBI, KGB, Sûrité, Scotland Yard e organismos semelhantes – o apoio do capo paulista à candidatura do poste Haddad. Malluf registrou o fato, claro, e distribuiu o retrato à imprensa. Derrubou Luíza Erundina da chapa de Haddad.

Para repetir uma frase-feita surrada e óbvia, o PT não é mesmo mais aquele. Aliás, como também é sabido, de repente Luiz Ignácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello ficaram amigos desde criancinhas.

Não sei se o paciente leitor destas mal traçadas já ouviu falar de Karl Mannheim. Ele me foi apresentado por Rubem Alves, que o tem entre os seus sociólogos favoritos. Pois Mannheim predisse, há mais de 50 anos, o desaparecimento das utopias políticas. Isto é, que, com o abandono das utopias, os políticos passariam a se guiar por interesses pragmáticos de poder, como 500 mil dólares ou 500 mil votos…

A explicação é dada pelo próprio Rubem: “Quando a gente vê São Jorge e o dragão estabelecendo alianças é porque eles abandonaram os seus sonhos. O que se tem é um produto híbrido, um São Jorge com rabo de dragão, ou um dragão com cara de São Jorge”.

Lembram-se de Orwell? Eric Blair Orwell, aquele da “Revolução dos Bichos”, a história de uma revolução que os animais, liderados pelos porcos, resolveram fazer na fazenda para se livrar do domínio do fazendeiro, que os explorava em benefício próprio. Os porcos se julgavam com todos os direitos para ser os líderes do movimento, pois eram os bichos mais sacrificados. O fazendeiro os engordava para depois transformá-los em linguiça, torresmo, lombo, toucinho, pernil assado…

Só que, no decorrer do processo revolucionário, aconteceram importantes transformações, já que, como diziam os próprios porcos, o processo é histórico, dialético, dinâmico e não linear. E os porcos passaram a ver que o fazendeiro e os capatazes da fazenda não eram tão maus assim. Havia interesses comuns, capazes de levar a proveitosas alianças. E no final da obra, a derradeira cena é tão terrível quanto significativa: a bicharada, do lado de fora, olha pela janela para dentro da casa do fazendeiro. Lá acontece uma reunião festiva para celebrar um novo marco político de cooperação entre fazendeiros e porcos. E olhando para os fazendeiros e para os porcos, os pobres bichos, de quem osporcos eram representantes, não mais conseguiam identificar quem eram os fazendeiros e quem eram os porcos: os fazendeiros tinham focinhos de porcos e os porcos fumavam charutos como os fazendeiros…

Taí o atual cenário político nacional brasileiro!…

6 ideias sobre “Lembrem-se de Orwell!

  1. F.s

    O PT vai saber o que é bom ‘prá tosse’ em outubro, em São Paulo. Vai pagar o preço da presunção, de achar que é o rei da cocada e ganha em qualquer situação. O erro começou na escolha do candidato, um cara desabonado pelas inúmeras falcatruas no Enem, na pasta que ele comandava.
    Mas o risível (ou sofrível) mesmo é saber que o Maluf era disputado também pelo Serra. Aí é que a vaca vai pro brejo! Tamos fritos e roubados, com um petismo desses e uma oposição dessas. Brasileiro nenhum merece!

  2. Parreiras Rodrigues

    CHG fez fotos da política usando todo seu estoque de lentes: olho de peixe, macro, angular, micro, e todas as ISO, 100, 200, 300…E sem filtro algum.
    E todas em preto e branco. Mas os políticos ficaram assim meio fora de foco, embaçados. É, tão meio tremidas. Da outra vez, use o tripé ou uma bengala, como aquele velho “amigo” do Zé Dirceu, tá.

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