9:29As glórias do meu bairro

por Cristovão Tezza*

Mordido pela ambição e pela vaidade, eu queria ser o maior escritor do meu bairro – mas felizmente a presença de Dalton Trevisan a poucas quadras aqui de casa, na esquina da Ubaldino, tem sido para mim uma sólida barreira contra o pecado da soberba. E, pela obra e pela vida, Dalton é o vizinho ideal, sábio e discreto. Sua mera presença silenciosa de vampiro tímido valoriza a vizinhança e o Alto da Glória.

Muita gente reclama dos vizinhos, na dura convivência cotidiana. Mas, no meu tranquilo condomínio, tenho sido um privilegiado. Como se não bastasse o Dalton ali adiante, da janela às vezes contemplo Caetano Galindo dedilhando seu ukelele na varanda do prédio, num Havaí curitibano, fim de tarde, o sol se pondo atrás das ondas da selva de pedras. O leitor não sabe quem é o Caetano? Além de violonista clássico e poliglota, meu vizinho acaba de traduzir Ulisses, de James Joyce – simplesmente um dos romances fundamentais da história da literatura e um desafio absurdo para quem se mete a traduzi-lo. Para se ter uma ideia, o primeiro que tentou foi Antonio Houaiss – aquele do dicionário. Pois Caetano Galindo completou também essa proeza, que acaba de sair numa edição maravilhosa da Penguim-Companhia. É um livro para a vida toda. E Caetano – vamos dizer a verdade – é um dos maiores especialistas do mundo em James Joyce. E ele é meu vizinho. Mora ali. E é tão generoso que, em vez de me esmagar com seu avassalador saber linguístico, empinando merecidamente o nariz – a mim, que mal traduzo o português lusitano para o brasileiro –, ainda me desafia no xadrez, jogando mal, e assim me dando o gostinho de pequenas vitórias de Pirro. O único defeito do Caetano é ser coxa-branca.

Por falar em futebol, dois andares abaixo do Caetano mora um outro vizinho extraordinário, o atleticano Christian Schwartz, meu consultor plenipotenciário para assuntos de futebol e centroavante de referência de uma equipe de futebol society. E, assim como Caetano, é musicólogo de respeito – o que admiro profundamente, já que nunca tive ouvido, só orelha. Mas não é só: entre outras muitas qualidades, Christian também é tradutor de alto coturno – basta dizer que dele é a belíssima tradução de A letra escarlate, o clássico americano de Nathaniel Hawthorne (também pela Penguim-Companhia). E os dois vizinhos já trabalharam juntos, vertendo Atravessar o fogo – 310 letras de Lou Reed (Companhia das Letras), num legítimo trabalho comunitário. Claro, eu podia me exibir e ficar dizendo aqui que, nos meus tempos de professor, estava na banca do concurso da Federal que aprovou o Caetano e que o Christian foi meu aluno, mas nem vou ficar fazendo praça disso, porque vão dizer que o cronista é um provinciano que só fica aí se achando.

Melhor ficar quieto, curtindo em silêncio as glórias do meu bairro.

*Publicado no jornal Gazeta do Povo

Uma ideia sobre “As glórias do meu bairro

  1. Ivan Schmidt

    Pois o Caetano Galindo, ao realizar a façanha de traduzir Joyce, um desafio para poucos, além de Dalton Trevisan e do próprio Cristovão Tezza, colocou Curitiba definitivamente no mapa da literatura mundial. Nas 400 páginas que já devorei, descobri que o tradutor, com uma habilidade de fazer inveja, atualizou as expressões coloquiais usadas “pra dedéu” pelo criador de Stephen Dedalus… e, aí, honrou o falar curitibanês, introduzindo na prosa irlandesa do início do século passado invenções só nossas como “búrica” e “vina”… Duvido que a patota frequentada por Leopold Bloom, em Dublin, já conhecesse e usasse esses termos. Tem muito mais e qualquer dia volto ao assunto, que vale a pena. Parabéns ao Tezza pela beleza da crônica, que além de escritor premiado é também vizinho do Galindo e do Dalton…
    Aliás, o vampiro eu via quase todos os dias flanando, na hora do almoço) pelos corredores do shopping Itália (Marechal com João Negrão). Anunciado o Camões o homem evanesceu!

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