9:34A arte da blindagem

Por Ivan Schmidt

O povo brasileiro, compreendida aí a parcela que tem alguma informação do que ocorre na chamada vida pública, embora saibam todos que a imensa maioria da população acaba passando ao largo dessas coisas, é testemunha do circo de horrores instalado em Brasília de alguns anos a essa parte. Aos mais afoitos peço calma, pois não se trata do horror causado pela perseguição política, torturas, sumiço ou a simples eliminação física dos adversários do regime.

Felizmente esse tempo já passou e espero que jamais volte, embora reste até hoje uma montoeira de esclarecimentos sobre os anos de chumbo que a sociedade tem o direito de obter, tarefa confiada à Comissão da Verdade, recém-nomeada pela presidente Dilma Rousseff. Esse, entretanto, é outro assunto.

O circo de horrores que prossegue em Brasília, cada vez mais feérico, está fazendo girar seus esquetes em torno da CPI do Cachoeira, que até agora produziu mais calor que luz. Não conseguiram os membros da dita e, a referência óbvia é para os parlamentares não pertencentes às legendas da aliança, tirar dos depoentes alguma declaração bombástica e comprometedora, mesmo porque é reduzido o número de pessoas convocadas. O direito constitucional de permanecer em silêncio tem sido o expediente mais usado pelos convidados a depor.

Nem a quantidade de gravações telefônicas feitas pela Polícia Federal com permissão da Justiça, nas quais são ouvidas as vozes de quase todas as figuras relevantes do grupo liderado pelo bicheiro Carlos Augusto Ramos (e elas não estão rezando o terço), chega a impressionar os circunstantes, a bem dizer, os parlamentares escalados para impedir que o governo tenha de explicar seu relacionamento com a Delta Construções, empresa altamente prestigiada pelo PAC e na qual, por infeliz coincidência, Carlinhos Cachoeira parece ocupar uma função muito importante.

O próprio Demóstenes Torres, posto que no âmbito da Comissão de Ética do Senado, admitiu ser dono da voz gravada nas muitíssimas conversas telefônicas com o bicheiro goiano, refugiou-se na pubescente explicação de que se tratava apenas de um teste submetido ao contraventor. O advogado de Demóstenes tentou, mas não conseguiu transferir o depoimento do senador à CPI e, nessa quinta-feira (31) o princípio constitucional de manter-se em silêncio foi outra vez usado como escudo.

A comissão aprovou a convocação dos governadores Marconi Perillo (GO) e Agnelo Queiroz (DF), mas, na contramão rejeitou o mesmo tratamento ao governador Sérgio Cabral (RJ). No entanto, a quebra dos sigilos bancário, telefônico e fiscal da Delta Construções, provavelmente tornará inevitável a convocação de Fernando Cavendish e Cláudio Abreu e, por tabela do governador fluminense, abrindo uma nova perspectiva para a CPI. Os próximos lances da disputa entre governo e oposição, mais uma vez devem provar para a opinião pública a verdade inexorável: “Todos sabem como uma CPI começa, mas jamais como acaba”.

Não há sequer respaldo para o empenho da maioria em focar unicamente as relações entre o senador Demóstenes Torres e Carlinhos Cachoeira, diante da multiplicação de indícios da flagrante promiscuidade entre o público e o privado, escancarada pela descoberta de um esquema desenhado para fraudar licitações públicas por meio de empresas fantasmas.

A tentativa dos governistas de evitar a convocação de Cavendish e outros executivos da empresa tem razão de ser, tendo em vista que além do PAC a empreiteira é responsável pela execução de grande número de obras contratadas com o Departamento Nacional de Infraestrutura dos Transportes (Dnit), não por acaso um dos recordistas de irregularidades administrativas denunciadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Mas, o circo de horrores não para por aí. O último esquete leva a assinatura do ex-presidente Lula, adicionando um contributo inestimável à compreensão dos usos e costumes da República na versão corrente do século XXI, que muitos de nós esperávamos ser a era do advento do iluminismo tardio no país. O ex-presidente se encontra para uma conversa ao pé do ouvido com o ex-presidente e ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no escritório de Nelson Jobim, também ex-presidente da suprema corte.

Um resumo foi relatado à revista Veja pelo próprio Gilmar Mendes, a quem Lula pediu a interveniência no sentido de postergar o julgamento do mensalão para depois das eleições municipais, a fim de atenuar os prejuízos que o PT certamente sofrerá com a exposição pública da atuação da “quadrilha” chefiada pelo ex-ministro José Dirceu, conforme está registrado no oferecimento de denúncia do ex-procurador geral da República, Antonio Fernandes de Souza. Na conversa Lula insinuou que certa viagem de Mendes a Berlim, onde se encontrou com o senador Demóstenes Torres, estaria fora das cogitações dos governistas na CPI do Cachoeira, numa espécie de augusta contrapartida aos bons ofícios do ministro.

A atitude de Lula pegou tão mal, mas tão mal, a ponto de despertar uma série de reprimendas à atitude do ex-presidente. A linha mais apropriada para a exegese do procedimento de Lula veio do ministro Marco Aurélio Mello, do STF: “Não posso presumir que o ministro Gilmar Mendes tenha criado esse episódio. O presidente Lula tem uma forma de tocar as coisas, concernente ao mundo privado, que funciona em sindicatos, onde ele cresceu. Agora, no campo público é diferente”. E, no meio da semana, em entrevista, o ministro Gilmar Mendes, instado a definir a natureza da arapuca que lhe armaram declarou em bom português: “É coisa de gângsteres”.

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