6:48A civilização do espetáculo

por Ivan Schmidt 

De cara devo confessar grande admiração pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa, premio Nobel de Literatura, que adotou a Espanha como segunda pátria. Para se ter ideia de seu lugar na literatura, há algumas semanas o autor de Conversa na Catedral foi convidado (mas recusou), por ninguém menos que o rei Juan Carlos para um cargo nobiliárquico no Instituto Cervantes, com a missão de atuar como uma espécie de guardião do idioma espanhol no mundo globalizado.

As razões alegadas pelo escritor para declinar da honraria foram alinhadas de forma tão nobre e cavalheiresca, que Juan Carlos nem piscou. Imagino o quanto qualquer intelectual que se expressa num idioma cada vez mais falado no mundo, se sentiria honrado e gratificado por uma convocação dessa natureza. Por outro lado, porém, continuará ganhando a literatura hispânica e mundial, já que dentre as principais razões da recusa o escritor alegou suas tarefas imediatas com a escrita.

É nesse contexto que esse artigo seguirá, mesmo aos trancos e barrancos, até a conclusão que espero não seja tardia e transmita alento ao espírito e à inteligência dos assíduos consulentes desse espaço iluminado pelo querido Zé Beto.

Segundo informações do diário editado em Sevilha, o ABC, Vargas Llosa ultimou um ensaio que deverá chegar às livrarias em abril, cujo título em tradução livre é A civilização do Espetáculo, vigoroso libelo contra a banalização da cultura, o descrédito dos intelectuais e até a falta de compromisso da imprensa diante desse cenário. Em se tratando de Vargas Llosa, deve-se esperar que o livro seja imediatamente traduzido e publicado no Brasil, tendo em vista o prazer proporcionado por leitura caracterizada  pela maestria dos argumentos, amenidade da exposição dos fatos e lucidez das análises.

É o que escreve e, não tenho nenhuma razão para discordar, o colega espanhol Antonio Paniagua, correspondente do ABC em Madri, a quem formulo com toda a sinceridade augúrios de que não esteja vivendo a “pão e água”, como sugere seu sobrenome, apesar da pesada crise econômica que assola a terra de Cid, o Campeador. Paniagua assegura que o ensaio de Vargas Llosa é “demolidor”, arremetendo contra a “crescente banalização da arte e da literatura”.

Há também fogo ardente sobre a anemia demonstrada pela imprensa de nosso tempo, assim como sobre a frivolidade do ambiente político, temas sugeridos como sintomas do discurso trivial que impregna a cultura e a sociedade.  Vargas Llosa está preocupado com a “ideia suicida” que domina a mentalidade contemporânea, segundo a qual a única finalidade da vida é levar vantagem em tudo. Espécie de recidiva da famosa lei de Gerson, slogan preferido por 11 entre 10 brasileiros há algumas décadas, lembram-se?

Como exemplo da entronização do superficial, o Nobel de Literatura destaca a ditadura da cozinha e da moda. Não é à toa que chefes e costureiros usurparam o espaço antes ocupado por cientistas, compositores e filósofos. Paniagua lembra que o fenômeno resulta do quase absoluto desaparecimento da crítica cultural, atualmente refugiada na universidade.

Entre outras coisas, Vargas Llosa escreveu que nas calendas o homem ilustrado sempre desempenhou papel relevante na vida cultural. Assim foi na Grécia de Platão ou na Inglaterra de Bertrand Russel. Se Ortega y Gasset levantasse hoje a cabeça não encontraria ninguém com quem debater. A influência de um Emile Zola no caso Dreyfus seria impensável na sociedade atual. Somente se o intelectual entrar no jogo da civilização do espetáculo e se converter num bufão terá possibilidade de que sua mensagem prospere.

Já no prólogo do ensaio Llosa enunciou uma fórmula essencialmente polêmica. Em tradução livre (como as demais referências ao artigo de Antonio Paniagua) é mais ou menos assim: “Agora, enfim, o que chamamos cultura é um mecanismo que permite ignorar os temas polêmicos, distrair-nos do que é sério, submergirmos num efêmero ‘paraíso artificial’, pouco menos que o efeito duma tragada de maconha ou uma cheirada de coca, ou seja, uma pequena abstração da irrealidade”.

Pela transcrição agradeço sensibilizado.

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