16:01O cerco e o teste

Editorial do jornal O Globo

Cerco à blogueira cubana testa presidente

Circula na internet um vídeo com um apelo dramático à presidente Dilma Rousseff: “Por favor, interceda por mim. Já fiz tudo o que está a meu alcance. (Mas) o muro do controle, o muro da censura, o muro que me impede de viajar livremente e retornar à minha ilha parece não se mover. Ajude-me, por favor.”

A jornalista e ativista Yoani Sánchez, uma das vozes mais críticas à ditadura cubana, pede ajuda para viajar ao Brasil. Ela foi convidada pelo ativista baiano Dado Galvão para o lançamento, dia 10 de fevereiro, de seu documentário Conexão Cuba Honduras, do qual é uma das personagens principais.

A lei cubana obriga o cidadão que pretenda ir ao exterior a pedir permissão. Desde 2008, Yoani entrou com 18 pedidos para visitar diversos países, todos negados. Do total, quatro eram para o Brasil, o último em 2010, quando escreveu carta ao presidente Lula, também pedindo ajuda para vir ao Brasil.

O novo pleito de Yoani é um teste importante para o governo na área dos direitos humanos, que Dilma definiu como prioritária. Mas a coisa não caminha bem. A assessoria de imprensa do Palácio do Planalto informou ao GLOBO, na sexta, que não haveria comentário sobre o pedido porque ele não foi feito de maneira formal.

Isso pode ter duas leituras. O Planalto pode estar dizendo que a Embaixada de Cuba em Brasília ainda não enviou às autoridades cubanas a carta-convite de Dado Galvão a Yoani, sem o que ela não pode pôr em marcha a parte formal de seu pedido para viajar ao Brasil.

Quando essa exigência for cumprida, teoricamente a Embaixada do Brasil em Havana poderá ajudar a jornalista a formalizar seu pedido ao governo brasileiro.

Mas a resposta do Planalto pode também significar a disposição de usar o infinito arsenal de recursos diplomáticos para, mais uma vez, não tomar conhecimento do apelo de alguém incômodo.

Pois, a despeito de todas as dificuldades impostas pelo governo cubano ao uso da internet e das mídias sociais, Yoani Sánchez se tornou conhecida em todo o mundo através de seu blog Generacion Y, no qual denuncia as agruras da vida cotidiana de seus concidadãos sob uma das últimas ditaduras comunistas do mundo, um decadente parque temático stalinista nos trópicos.

O regime castrista tem muitos aliados em Brasília. Em fevereiro de 2010, o presidente Lula chegou a Havana no dia em que o dissidente Orlando Zapata morreu após longa greve de fome. Lula criticou a forma de protesto.

Os dissidentes cubanos não conseguiram entregar-lhe uma carta em que pediam sua intervenção junto ao presidente Raúl Castro pela libertação dos presos políticos.

O governo Dilma se distancia de alguns rumos da política externa lulopetista. O presidente do Irã, Ahmadinejad, não incluiu o Brasil entre os destinos de seu atual giro pela América Latina, reflexo do esfriamento das relações bilaterais.

Dilma, que já disse preferir “o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras”, poderia endossar o convite a Yoani, uma batalhadora da causa da liberdade em Cuba.
Quanto mais não seja, para reafirmar a posição declarada de defensora dos direitos humanos, de cujo desrespeito ela já foi vítima, como Yoani é hoje em Cuba.

Uma ideia sobre “O cerco e o teste

  1. tony

    O silêncio da presidente tem lá a sua lógica, ela não quer repetir o erro do companheiro, que deu guarida para aquele assassino italiano. E se a blogueira põe em risco asegurança nacional da ditadura? E ela pode ser agente da CIA e querer se aproveitar da chance e dar o pinote? Ou pior do que isto, se apaixonar por Pindorama e dizer, não volto mais. ACarlos

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