6:04Essa “vida cachorra”

por Célio Heitor Guimarães

Acabo de ler “Mano, a noite está velha” (Planeta Literário, 2011), obra póstuma, autobiográfica, do nosso Wilson Bueno, que tão cedo e tão estupidamente nos deixou. Com certeza, ele está por inteiro naquelas páginas sofridas. Um talento como poucos, aprisionado em um corpo atormentado, refém de uma “vida
cachorra”.

“A vida é triste porque somos inevitavelmente íntimos de nós mesmos e não há quem se suporte quando se olha por dentro – sincero, honesto consigo mesmo, veraz”.

Na orelha do livro, Ubiratan Brasil, editor do Caderno 2 de O Estado de S.Paulo, relembra que “Wilson Bueno era saudado como um dos grandes reinventores da literatura brasileira por conta de sua prosa experimentalista, em que a própria linguagem é, muitas vezes, o tema do enredo”. Tem razão, embora eu acredite que isso tivesse pouca importância para ele. Wilson queria mesmo era expressar-se, pôr para fora aquilo que asfixiava a sua alma. Era um poeta, solitário, recluso em tormentos pessoais e familiares, com os quais pretendeu fazer, nesses derradeiros escritos, um acerto de contas.

“Mentindo a mim mesmo, alinhavo frases, longos períodos, parágrafos sujos ante o medo e a ignorância de que escrever é para os gênios e não para um poeta em tom menor feito este…”

Recluso no “Palacete dos Tico-Ticos” – sobrado que ficava pelos lados da Vila Tingui e não no bairro “new-kitsch do Champagnat”, antigo Bigorrilho, como colocou no livro –, depois da morte da mãe restou a Wilson a literatura. Lia e escrevia com compulsão, ainda que isso não lhe acalmasse os nervos nem
atenuasse os dias: “Preciso escrever ao menos para não deixar que passe pela água do tempo a nossa lenda desimportante…”

A morte se faz presente em cada página de “Mano, a noite está velha”, como uma premonição.

“Cato meus restos pela sala. É assim como se eu fosse um boneco de pano do qual se retirou todo o enchimento… Há três dias não me olho no espelho, há três dias não tomo banho, não faço a barba nem troco de roupa. Devo estar horrível. Fumo, compulsivamente fumo um cigarro atrás do outro e o inevitável ventilador do teto, com seu ruído rascante, torturado, transtorna ainda mais o janeiro espedaçado… Fumo, Mano, a tragadas demoradas e fundas, até o último esforço dos pulmões, o por certo pulmão cavernoso dos fumantesobsessivos. Feito quem suspirasse o derradeiro suspiro, a tragada chega a aquecer docemente traqueia e brônquios, na tentativa sempre vã de apaziguar a alma. Mato-me, claro. Aplicadamente vou me matando aos poucos, ou de vez, já não sei…”.

Não foi o cigarro que matou o escritor. Nem a bebida. Foi a solidão, as ausências, essa vida bandalha e o desamor. Que pena, Wilson! Você está fazendo falta por aqui.

Uma ideia sobre “Essa “vida cachorra”

  1. Edson Dallagassa

    Muito bem lembrado.
    Justa homenagem ao talento de um ser humano complexo, dividido e assombrado por seus multiplos fantasmas.
    Gostei !!

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