16:50Notícias de Newton Sampaio*

por Dalton Trevisan

          O maior contista do Paraná foi um moço chamado Newton Sampaio. Morreu aos 24 anos, num sanatório de tuberculose, em 1938, e contra ninguém, neste Paraná, se fez tão grande guerra em silêncio. É que teve, em vida, a coragem de rir dos tabus da província e isso eles não perdoam quando o infiel cai… morto.

          Morrendo moço, deixou obra realmente talentosa, embora imperfeita: o livro de contos Irmandade que é um dos dois ou três melhores da ficção paranaense. Aqui, onde se escrete tão mal em prosa (sem fazer, com isso, exceção à poesia…), o livro de Newton Sampaio é um livro isolado. Não obstante a diluição da narrativa em algumas histórias (como Quinze minutos e Trem de subúrbio, antes crônicas), o autor mantém o seu dom inelutável de contador. Com esse dom, servido por um estilo limpo, ele fez honestamente a sua parte; apenas lhe faltou tempo.

          A nota que lhe querem atribuir, como característica de lirismo, é sem dúvida falsa. O seu lirismo é quase sempre superficial, como no Cântico, onde aliás os seus pouco comentadores não quiseram ver a finalidade, antes de sátira, que outra coisa. Jamais no Cântico, senão no final Tríptico, é que se pode encontrar a nota lírica, que é mais tristeza magoada.

          Presente nele está a influência de Antônio de Alcântara Machado, que é inútil se negar, tanto se mostra na construção da frase, preferência dos temas e até no gesto inofensivo de piedade sob riso amargo.

          Todavia, pairando sobre eles, o supsenso do instante dramático, cheio de coisas humanas e com a pele sensível ao frio das palavras, os contos de Irmandade representam o que de melhor tem o Paraná no gênero.

          Falei do autor, não conheci o homem. Não foi pessoalmente, segundo me dizem, a imagem triste e desencantada que o livro deixa supor. Foi sim um moço de grandes gargalhadas, que apesar de paupérrimo trabalhou por si, estudando na Faculdade de Medicina, e sustentou outros irmãos menores, sem perde o gosto pelas coisas boas da terra, nem a coragem da luta. Foi polemista violento, ótimo garfo e camarada bom e alegre; fiel a sim mesmo, sem abdicar do reino terrestre, era acima de tudo um homem do mundo.

*Publicado em junho de 1947

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