6:50Dois abraços

de Rogerio Pereira, publicado no site “Vida Breve” (www.vidabreve.com)

Quando os vi, já estavam abraçados. Os corpos a destruir a saudade. As mãos dela esfregavam com ânsia e desajeito a camisa de quadrados minúsculos. O toque nas costas do homem que a esperava. O corpo a envolver o corpo do outro. Do tecido, despontavam gotas de suor. Da boca, palavras inaudíveis aos meus ouvidos intrometidos. Um calor inesperado nos aguardava lá fora. Estou sentado. E observo o reencontro de um casal que desconheço. Não há pressa nos gestos. Ambos conhecem os caminhos do outro; não se perdem na inexperiência do olhar. Não são estranhos ao toque, à urgência do amor. Ele estava ao meu lado a fingir a leitura do jornal. Quando ela surgiu na porta de desembarque, ele não resistiu e desequilibrou-se nos poucos metros que os separavam. Um bêbado a trambolhar na embriaguez do reencontro. Ao desviar o olhar para o calor a sapecar a calçada, perdi-o de vista. Quando o encontrei novamente, já estava envolto nos braços da mulher que chegava. O que me impressiona é a violência da entrega, a sofreguidão do encontro. Há muito deixaram de ser jovens. Há quanto tempo não se encontravam? O abraço não acaba em beijo.

Ela chegara logo depois. A mala grande denunciava uma viagem longa. Parada diante de mim, parecia perdida. Ninguém a esperava no aeroporto. O burburinho ao redor não lhe acossava. A ausência preenchia a tarde. Olhava ao redor feito uma biruta desgovernada, numa tempestade, à espera do ciclone. Mas nem a mínima lufada de vento a estragar-lhe o penteado remendado na ponta dos dedos. Nada. Ela, estática, no meio de outros encontros. Quando se preparava para tomar a direção da saída, as mãos encontraram o seu rosto. De onde saíra aquele homem? Imagino que tenha quase 70 anos e uma vitalidade equina. Ela é um pouco mais nova que ele. O rosto aprisionado entre os dedos é espanto e alegria. Aos poucos, as mãos deslizam pelo resto do corpo, envolvem a cintura e chegam às costas. O abraço é retribuído com a mesma intensidade. A incerteza da solidão esfarela-se. Ela entrega-se a um dos abraços mais longos que já presenciei. Dois polvos a brigar no deserto. São namorados públicos. Chamam a atenção sem a vergonha adolescente que enrubesce no primeiro beijo. Entregam-se na saudade a costurar marcas. Olhares abissais os invejam no enleio suspenso do reencontro. Difícil disfarçar a inveja daqueles corpos entrelaçados, entregues na ausência do mundo que os rodeia. Não veem a poeira que se desprende do chão, não sentem o calor que esmorece nossa vitalidade, não estão onde nós imaginamos que estejam. Estão apenas neles: duas ilhas a cruzar o Pacífico. Quando uma fresta se intercala entre ambos, os olhares se encontram. Ele aprisiona novamente o rosto da mulher entre os dedos. O abraço acaba em beijo. Saem pela mesma porta por onde saíra o outro casal.

Lá fora, o inesperado calor de Porto Alegre nos aguarda a todos.

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