17:14Momento de rendição

Trecho da autobiografia de Eric Clapton, enviado carinhosamente pela artista Iara Teixeira, onde o guitarrista relata o momento em que iniciou de fato sua recuperação da dependência das drogas:

(….) ” Não obstante, atravessei meu mês de tratamento aos trancos e barrancos, a exemplo do que havia feito da primeira vez, apenas riscando os dias que passavam, esperando que algo em mim mudasse sem que eu tivesse que fazer muito por isso. Então, certo dia, quando minha internação estava chegando ao fim, o pânico me atingiu, e percebi que de fato nada havia mudado em mim, e eu estava voltando ao mundo mais uma vez completamente desprotegido. O ruído em minha mente era ensurdecedor, e a bebida estava em meus pensamentos o tempo todo. Fiquei chocado ao perceber que estava em um centro de tratamento, um ambiente supostamente seguro, e estava em sério perigo. Fiquei absolutamente aterrorizado, em completo desespero.
    Naquele momento, quase que por si mesmas, minhas pernas cederam e cai de joelhos. Na privacidade de meu quarto, implorei por socorro. Eu não atinava com quem estava falando, sabia apenas que havia chegado ao meu limite, não me restava mais nada para lutar. Então lembrei do que tinha ouvido falar sobre rendição, algo que pensei que jamais conseguiria fazer, que meu orgulho simplesmente não permitiria, mas entendi que sozinho eu não teria sucesso, e por isso pedi socorro e, caindo de joelhos, me rendi.
    Em poucos dias percebi que havia acontecido alguma coisa comigo. Um ateísta provavelmente diria que foi apenas uma mudança de atitude, e em certa medida é verdade, mas foi muito mais que isso. Encontrei um lugar a que recorrer, um lugar que sempre soube que estava ali, mas em que nunca realmente quis ou precisei acreditar. Daquele dia até hoje, jamais deixei de rezar de manhã, de joelhos, pedindo ajuda, e à noite, para expressar gratidão por minha vida, e, acima de tudo, por minha sobriedade. Prefiro me ajoelhar porque sinto que preciso ser humilde quando rezo e, com meu ego, isso é o máximo que posso fazer.
    Se você está perguntando por que faço isso, vou dizer….porque funciona, simples assim. Em todo esse tempo em que estou sóbrio, nenhuma única vez pensei seriamente em tomar um drinque ou usar alguma droga. Não tenho problema com religião e cresci com uma forte curiosidade sobre modelos espirituais, mas minha busca afastou-me da igreja e da veneração em grupo, rumo a uma jornada interior. Antes de minha recuperação ter início, encontrei meu Deus na música e nas artes, como escritores como Herman Hesse, e músicos como Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Little Walter. De alguma forma, meu Deus sempre esteve ali, mas agora eu havia aprendido a falar com ele.”

Eric Clapton, em Eric Clapton A Autobiografia – editora Planeta
Capitudo : Conor, pgs 280/281

6 ideias sobre “Momento de rendição

  1. Geraldo Serathiuk

    Acabo de terminar a leitura da autobiografia de Clapton. Imperdivel. Sua origem sem mãe e sem saber que foi o pai. As dificuldades no inicio para se firmar na musica. Suas companhias geniais de uma geração de Hendrix, Harrison e tantos outros. Seus amores, especialmente o platonico pela mulher de Harrison. Seus sofrimentos. E seus Crossroads para ajudar os que trilharam o mesmo caminho das drogas. E sua insistência apaixonada no blues. Quando passei um dia no inicio do ano na frente da Livraria Curitiba la na Boca e vi o livro, olhei e toquei suas folhas. Só fiquei calmo e tranquilo depois de alguns meses comprar o livro e ler, pois ficava incomodado em escuta-lo e ve-lo de forma genial tocando. Genial é dizer e contar de forma corajosa tudo que contou em seu livro.

  2. Ricardo Widerski

    È preciso humildade para aceitar e muita coragem para depor. Clepton, musico genial, nos mostra que é possivel sair desta “prisão” que é a dependencia!

  3. SFU

    Pois é! Não sei foi por cortesia, ou por omissão, ou por desconhecimento, mesmo, da correlação com teu caso, nenhum dos comentários estabeleceu o comparativo. Relevo, pois, esta situação, pois mereces menção já que Clapton, de quem sou fã, também saiu do fundo do poço. Felicito a ambos.

  4. Iara Teixeira

    Sfu,talvez não tenha ficado claro, mas, quando disse que acho muito corajoso e generoso quem dá depoimento sobre esse assunto tão difícil, eu tava incluindo o Zé Beto. Parabéns pros dois!

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