7:50O amor dói

Ilustração: Tereza Yamashita

de Rogério Pereira (publicado no site Vida Breve – http://vidabreve.com)

O amor é uma mordida na infância. Delas, ficaram as marcas. Gislaine de dentes saltados a desafiar os limites dos lábios. Mariana tirava meleca do nariz com um prazer indecente. Audrey tinha piolho. Fabíola usava uniforme muito apertado e a panturrilha era gorda. Delas, nenhum amor correspondido. Todos naufragaram na minha timidez, na falta de jeito e no silêncio da boca. Maribel, a única conquista. Mas dava-me beijos com gosto de solidão. E tinha nome de biscoito. Durou quase nada. A zombaria dos amigos destrói qualquer amor infantil. Lembrei de todas elas quando soube da primeira grande desilusão amorosa de minha filha. Ali, na saída da escolha: “O Pedro Henrique me trocou”. Ao fundo, banquinhos verdes, cartazes e brinquedos coloridos. Algazarra de crianças e mães. O amor escolhe lugares estranhos para destrinchar corações.

Carrego no celular algumas fotografias dos filhos. De tempos em tempos, ela me pede: “Me mostra aquela do meu aniversário na escola”. Nos cabelos, o laço azul combina com o restante do uniforme. Ao seu lado, ele: boca aberta, pronto para triturar uma coxinha. Ela esconde os lábios atrás de um brigadeiro. Sentar-se à mesa do aniversariante é uma honra para poucos. Apenas dois são convidados entre os quase trinta alunos. Uma escolha das mais difíceis aos quatro anos de idade. Na mesa, um bolo de chocolate à espera do primeiro talho. Na parede, um coração gigante ao lado do nome dela. Em alguns lugares da infância, o mundo parece perfeito.

Ela estava confiante. Tinha certeza de que seria escolhida por ele. Ela o escolhera anteriormente. Afinal de contas, amar é retribuir. Em casa, ajudou a fazer o pacote do presente: um livro ao primeiro amor. Sem reclamar, tomou banho. Vestiu-se com esmero e paciência. O laço nos cabelos era rosa, em harmonia com a sandália. O uniforme alinhado. Perfume na pele delicada. Um batom suave nos lábios em formação. Dentes escovados. O corpo esguio insinua a formação de uma mulher bonita. Teimosa, mas bonita. Não conseguia disfarçar a ansiedade. Depois, não conseguiria disfarçar a tristeza.

Quando entrei na papelaria, avistei Gislaine atrás do balcão. Paguei o tubo de cola, sem ser minimamente notado. No bar, Mariana não tirava meleca do nariz. Ainda que muito bêbada, parecia a mesma menina de sete anos que infernizou minha infância amorosa. Amei Mariana como o fiel a pedir perdão na iminência da morte. A Audrey, na fila do banco, eu era transparente. Não tive coragem de perguntar se ainda tinha piolho. Fabíola, encontrei enquanto corria no parque. Ela passou sem me notar. Ao longe, a panturrilha parecia ainda mais gorda. O amor é realmente cego. Maribel, eu nunca mais encontrei. Mas continua tendo nome de biscoito.

Ela veio cabisbaixa. A mochila às costas pesava toneladas. Não conseguia esconder a decepção. “Aconteceu um acidente hoje”, contou a professora. “Uma colega deu uma mordida nas costas dela durante a festinha do Pedro”. Na pele macia, delicada e, outrora, perfumada, as marcas dos dentes ainda desenhavam os contornos da arcada infantil. Nada grave. Uma banalidade na batalha perdida. A tragédia ainda estava por vir. “Aconteceu algo pior”, disse. “O Pedro Henrique me trocou.” E calou-se.

Há alguns dias, ela não pede para ver a foto dele no celular.

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