14:32Um Brasil que ainda não conhece sua música

por Antoine Kolokathis* (antoine@direcaocultura.com.br)

“O Brasil não conhece o Brasil”, cantava Elis Regina na década de 70, na célebre canção de Aldir Blanc.

Pois décadas se passaram e grande parte do brasileiro ainda continua a desconhecer muito do que de melhor acontece aqui. E um caso dos mais típicos dessa “alienação nacional” é a nossa genuína música instrumental brasileira.

Acredito que ainda são poucos os brasileiros que têm consciência de o quanto o Brasil é considerado no mundo um fenômeno em termos de música instrumental.

Basta ir numa boa loja de CDS de qualquer grande capital da Europa e nos EUA, onde é comum encontrar títulos de instrumentistas brasileiros.

Nossos grandes nomes – como Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, entre muitos outros – sempre foram considerados gênios lá fora.

E isso não é de hoje: vem desde os tempos dos Oito Batutas, de Pixinguinha, que nos anos 20 fez a Europa se curvar pela primeira vez à beleza do nosso choro, passando pelo violonista Garoto, que na década de 30, nos shows de Carmen Miranda, encantava os jazzistas americanos, que o chamavam de “O homem dos dedos de ouro”, entre muitos outros casos.

Tanto verdade que muitos dos nossos melhores instrumentistas chegaram inclusive a se radicar em outros países, onde foram (e geralmente são) muito mais respeitados, requisitados e valorizados do que aqui.

E como se todo esse histórico rico e eclético não bastasse, a cada nova geração, a música instrumental brasileira se renova, em quantidade e qualidade impressionantes, em novas safras de novos músicos, grupos e CDs.

Prova disso são “movimentos” musicais que recentemente começaram a ocorrer em São Paulo, como o “SP Vanguarda Instrumental” (www.myspace.com/spvanguarda), que reúne uma série de grupos instrumentais, e o “Movimento Elefantes” (www.movimentoelefantes.com), que aglutina as chamadas “big bands”, que têm feito um excelente trabalho de abertura de mercado – conquistando novos espaços para tocar e despertando nas novas gerações o gosto pela nossa música instrumental.

Mas não podemos nos contentar com pouco. Ainda há muito para se fazer.

O grande problema é que apesar de ter muito mercado lá fora e demonstrar uma grande força “localizada” aqui no Brasil, a música instrumental brasileira ainda é uma ilustre desconhecida em nosso grande território nacional – pelo menos para a maior parte da população brasileira.

Pouquíssimas rádios tocam esse tipo de música, e as que tocam ficam restritas aos grandes centros. São raros os espaços dedicados ao estilo na TV, com exceção das TVs públicas que, sabemos, pouco alcance têm entre a maioria da população.

E os CDs, embora ainda sejam gravados por poucos, mas bons selos, ficam restritos a um grupo seleto de formadores de opinião dos grandes centros.

Mas porque isso acontece, considerando-se que se trata de um “produto” tão excelente, que encanta – e sempre encantou – pessoas em todo mundo?

Acredito que há vários fatores. O primeiro é a causa “mãe” de todos os problemas relacionados à produção cultural brasileira: a educação do brasileiro.

Não precisa se pesquisar muito para saber que a educação pública no país – que é a que atinge a maior parte do Brasil – tem uma série de falhas e carências. E isso é problema porque, para ser mais bem assimilada e, portanto, consumida, a boa música instrumental exige por parte do público um repertório cultural um pouco mais sofisticado.

Mas isso é só parte da causa raiz do problema, pois o que não falta ao brasileiro é sensibilidade para gostar de música boa, pois, como se sabe, somos um povo muito musical.

Acredito que a outra falha vem da própria mídia, do próprio mercado e indústria cultural e seus agentes, que ainda não perceberam o potencial mercadológico da boa música instrumental.

Desde 2005, atuo num projeto cultural que vem me provando a força mercadológica da música instrumental brasileira.

Trata-se do selo Kalamata (www.kalamata.com.br), de Campinas (SP), especializado em produzir e lançar intérpretes, compositores e arranjadores da mais fina flor da música genuinamente brasileira, com ênfase na música instrumental.

Nele, lançamos diversos trabalhos de alguns dos mais importantes instrumentistas brasileiros da atualidade, como o violeiro Ivan Vilela, o saxofonista Mane Silveira e o compositor Ricardo Matsuda, entre muitos outros.

Em todos, o resultado é sempre o mesmo: ótimas críticas e elogios aos discos e instrumentistas por parte da imprensa especializada e de “iniciados”, o que nos fortalece cada vez mais a noção de que a música instrumental brasileira é e sempre será um excelente produto cultural, no qual vale a pena investir e explorar, no melhor sentido do termo.

Mas ainda é algo restrito, localizado, consumido por poucos. A música instrumental ainda é um filão a ser explorado. Ela precisa “invadir” as rádios. Precisa ir para as novelas de grande audiência. Precisa ocupar os programas de TV mais populares – por que não? Por que não dá audiência? Quem disse isso?

Em qualquer mercado ou indústria, há sempre “descobertas” de novos produtos que até então estavam “escondidos”, mas que, muitas vezes, “do nada”, são descobertos e explorados, gerando produção cultural e empregos ao setor etc. Uma dessas descobertas mais recentes são as produções de musicais ao estilo Broadway no Brasil.

Claro que tais produtos culturais só se tornaram viáveis porque alguns agentes culturais apostaram nisso. E se deram muito bem.

Pois em nosso Brasil do gênio de Aldir Blanc, muitas “querelas” – pendências, segundo o dicionário – ainda persistem. Uma delas certamente é a nossa indústria cultural ainda vir a descobrir o poder mercadológico da nossa mais genuína, bela e encantadora música instrumental brasileira.

*Antoine Kolokathis (antoine@direcaocultura.com.br) é um dos mais atuantes produtores culturais do país. É diretor-fundador da Direção Cultura (www.direcaocultura.com.br), produtora cultural de Campinas que em 10 anos de existência já produziu dezenas de grandes projetos culturais gratuitos, aprovados em lei de incentivo à cultura, sempre visando educação e formação de público.

Uma ideia sobre “Um Brasil que ainda não conhece sua música

  1. Parreiras Rodrigues

    Zé: Em 75 fiz matéria de página inteira com Bob Lester, o sapateador do Bando da Lua que acompanhava Carmem Miranda no Cssino da Urca, Rio. E lá na redação do então piazote O Diário de Maringá, afastamos as mesas, abrimos uma clareira para um show dele. Exclusivo.

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