9:57Repórter na avenida

O chapa Guilherme Voitch, repórter da Gazeta do Povo, fez jornalismo e desfilou na avenida Cândido de Abreu para contar aos leitores a experiência. O relato foi publicado hoje. Acompanhem:

Dei dois pulos, arranquei minha cartola e saí com as mãos levantadas e os indicadores para o alto, como os craques fazem quando comemoram gol: “É nosso pô”É nosso!” Era o final festejado da minha trajetória de carnavalesco curitibano, do meu debute na Cândido de Abreu, da minha estreia na folia de Momo. Congelemos essa imagem única do folião e voltemos ao começo da história. Meu ingresso no samba se deu por uma fonte, um dirigente sindical que, volta e meia, aparece nas reportagens do dia a dia. Por meio desse contato, que, quando não está militando, toca o tamborim na Embaixadores da Alegria, busquei meu ingresso na avenida.

Perguntei se seria possível desfilar com a escola e relatar a experiência no jornal. Minha fonte pediu um tempo para conversar com a direção da Embaixadores. Um dia depois, veio a autorização. Eu deveria comparecer ao ensaio da escola, para ver os preparativos do desfile e ser apresentado à comunidade. Assim foi feito. A Embaixadores da Alegria não tem propriamente um barracão. A montagem dos carros e a confecção das fantasias é feita em um terreno da família D’Ávila, que comanda a escola. Os ensaios acontecem em uma cancha de futebol. A bateria e os puxadores tocam embaixo de uma lona de circo. A comissão de frente, o mestre-sala e a porta-bandeiras praticam no meio do barro, ao lado da quadra. Se chover, ou se interrompe o ensaio ou continua-se na chuva.

Faltando poucos dias para o desfile, procurei apenas observar o trabalho, para não atrapalhar a escola. Voltei dois dias depois. Na sexta-feira, véspera do desfile, havia ainda mais gente. Para minha surpresa, muita gente me reconheceu. Me chamaram de Guilherme, de Gui e de Gazeta. O “Gazeta da Embaixadores”. Concordei com um sorriso e fui para a fila da fantasia. Minha ala era a da Tribo Cree, a tribo da velha índia Olhos de Fogos que previu a doença da terra e que serviu de matriz para a criação do GreenPeace. A Fantasia tinha uma calça e um colete laranjados e uma armação com várias penas, vermelhas, pretas, laranjadas. Era uma overdose de alegria para alguém de 30 anos e nenhum de samba. Minha maior aventura de carnaval tinha sido encostar num poste, atrás da banda de Guaratuba, e dar uma sambadinha irônica com uma cerveja na mão. Pular pra lá e pra cá, diante de milhares de pessoas desconhecidas, com uma fantasia cheia de penas me pareceu uma má ideia naquele momento. Eu teria de encarnar o espírito da índia de olhos de fogo e prosseguir.

O desfile

Cheguei na Cândido de Abreu por volta das 22h de domingo. Já vestido e segurando minha cartola. Ao descer no táxi, eu via os olhares de inveja daqueles que não iriam desfilar. Minha fasntasia indicava que sim, eu era um escolhido. Seria naquela passagem de sábado para domingo um súdito de Momo. Achei rapidamente a concentração. O clima era de nervosismo. A Unidos do Bairro Alto já desfilava.A Leões da Mocidade se preparava e depois víriamos nós. A Acadêmicos da Realeza, campeã do carnaval anterior, fecharia o desfile. Não tinham bobos na Cândido de Abreu. Sentia que o clima da escola era positivo, mas todos os adversários estavam preparados. Escapei duas ou três vezes para me hidratar. Não era fácil ser um verdadeiro índio cree com aquele calor. Além disso, dessa forma, controlava o nervosismo. Nesse vaievém, encontrei amigos queridos que vieram me prestigiar e me filmar. O nervosismo aumentava.

A Leões da Mocidade já estava na metade do desfile, quando encontrei um amigo, também jornalista que desfila já há três anos. Ele desfilaria como índio cree também. Mais vivido no meio carnavalesco, ele meu deu algumas dicas. “Vá de uma ponta a outra em ziguezague e demonstre alegria”, disse ele equanto voltamos ao ambulante para nos hidratarmos mais um pouco. Guardei aquelas palavras sábias como um mantra. “Ziguezague. Alegria”. Quando vimos, a Leões fechava seu percurso. Tivemos de correr para não perdemos o lugar e levamos uma pequena e educada bronca da harmonia.

Naqueles minutos na concentração, me senti como um herege, perto de ser jogado aos leões. No alambrado, meus colegas me davam estímulo com gargalhadas e piadas. Era como se, de repente, alguém levantasse da arquibancada, me apontasse e gritasse: farsante! Ele não é sambista! Cogitei a possibilidade de fugir pela Cândido de Abreu com fantasia e tudo. Um branquelo de óculos, em pânico, atormentado pelo poder de carnaval.

Vendo meu nervosismo, meu colega jornalista se aproximou e disse: “Chegou a hora!” Nem deu tempo de mais nada. Quando vi, o cavaquinho começou a tocar e o puxador engatou o samba. Quando a bateria engrenou, tudo foi embora. Eu estava inserido na magia do Carnaval. Dali em diante, foi tudo rápido e intenso, como deve ser. Tentei fazer meu melhor ziguezague possível e manter os braços levantados. A timidez tinha ido embora e eu parecia um veterano de Cândido de Abreu. Acenei, bati no peito, fiz uma paradinha imaginária da bateria e arrisquei paços arriscados, que poderiam me levar ao chão. Nunca saí do Água Verde, mas naquele momento tive orgulho da Embaixadores da Alegria e da comunidade do Santa Quitéria. Chegamos à dispersão exultantes, sob aplausos do público. Dei dois pulos, arranquei minha cartola e saí com as mãos levantadas e os indicadores para o alto, como os craques fazem quando comemoram gol: “É nosso pô”É nosso!”.

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