7:37Os poemas

de Zeca Corrêa Leite

Assim posto meu coração: entregue.
Nele os poemas aparecem
não sei se para tomar água,
descansar da longa caminhada,
buscar retalhos de versos perdidos,
ou simplesmente
bateram aqui distraídos, zanzando,
fazendo hora, pensando na vida.
A verdade é que quando chegam
me tomam de assalto.
Mesmo sendo visita sempre aguardada,
é ao mesmo tempo inesperada.
Tratar de que jeito as palavras
se elas são pétalas de sublimes encantos
e minhas mãos – ah, minhas pobres mãos –
carecem de leveza, veludo e algodão?
Como cuidar deles se não tenho
alimento a lhes dar?
Minha alma é um peso só:
falante demais, silenciosa demais,
desencontrada, sem ciência de viver.
Fico assim, do jeito que estou agora,
quedado, mudo, envelhecendo
entre lençóis e vírgulas.
Donos de si, os poemas contam
histórias verossímeis, inverossímeis,
devassam meus medos, escancaram diários
que me neguei a escrever.
Não me machucam – me acalmam,
acolhem-me na transparência de seus peitos
e fazem de conta que não percebem
que pouco, ou nada, tenho a lhes oferecer.
Etéreos, vindos de palácios e sonhos,
têm vidas que não percebi.
Os poemas que passam por mim
vão embora desse jeito, em paz,
sem olhar para trás,
e fico a pensar se tudo foi verdade,
foi sonho, foi nada,
simplesmente eu que enlouqueci.
Ou morri.

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