19:51HORÓSCOPO

por Zé da Silva

Escorpião

Foi o som do surdo. Aquilo entrou feito o efeito visual da bomba H, em teste no atol de Mururoa, na tela pequena de uma televisão preto e branco espetada em cima da cômoda de um quarto na Vila dos Confins. Atressou e ficou lá, ecoando sempre que começavam a anunciar a festa. Chegou a acreditar o que disse aquela carola de gordas carnes que um dia lhe revelou o tesão e, também, anos tarde, porque isso era considerado feliniano. Ela dizia que era coisa do Demo, do Tinhoso, do Cramunhão. Ele ouvia, mas ficava aterrado com o tamanho daquela bunda e dos braços. Depois… bem, depois bateram o bumbo na orelha direita dele e aquilo ficou zunindo pela vida afora. Se não era o anúncio da chegada das tropas de Lucifer a invadir almas, tirar roupas e liberar a devassidã, com certeza não era coisa de Deus, nosso senhor Jesus Cristo encantado pelo Espírito Santo. Cansou de fugir para o mato, para retiros, para o alto das montanhas, par o mar aberto. Quanto mais se afastava, mais o som aumentava e, pior, entrava em ritmo de música, e o corpo dele começava a se movimentar, como se tivesse tomado. Um dia pediu que o amarrassem e ficou os quatro dias assim. Até que uma foto numa revista velha fez a transformação. Ele viu retratos dos “Clóvis” e achou que aquelas máscaras toscas eram, na verdade, a salvação. Foi atrás de uma, alucinadamente, como alguém que sente o cheiro da água no deserto e sai sem rumo como se fosse guiado por uma força estranha. Ele a enconrou numa casa de barro em cidadezinha do Interior do Nordeste. O dono parecia saber o dia e a hora em que chegaria ali. Pois entregou-a sem falar nada, sem cobrar nada, e imediatamente, assim que ele entrou pela porta pulando um cachorro magro que dali não saía por falta de força. A máscara encaixou feito a carne da manga em volta do caroço. Ele olhou o mundo. Agora tinha outro rosto. Ouviu alguns acordes e foi atrás. Carnaval. Não ouvia mais o som aterrador do bumbo lá dentro da alma, mas sim uma melodia cujo tum-tum-tum fazia seu coração pular, o corpo girar, voar e isso arrancava de dentro da negritude do ser uma risada que atravessava o mundo. Nunca mais tirou a máscara. Não parou mais de dançar. Sempre. Mesmo sem nenhuma música. E sua fama espalhou-se feito fogo na caatinga. Agora ele era homem com o diabo no corpo.

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