5:12HORÓSCOPO

por Zé da Silva

Escorpião

O pão estava quente, o queijo derretendo, a dentada arranou um pequeno naco. O som de uma televisão entrava pelo ouvido esquerdo. Um cachorro preto e branco descansava embaixo da mesa. O suco era de manga. A hora, da novela. Mastigada, a comida quase não desceu. Algo veio não se sabe de onde e sem definição. Mas era como se uma onda tênue invadisse a alma de tristeza. E ele não estava triste. Naquele momento da vida tinha até receio por estar feliz, na média imponderável da vida. Os olhos fitaram um ponto distante na na toalha da mesa. Levantou, foi deitar na cama grande, cruzou as mãos atrás da nuca. Os dois focos de luz nunca notados antes entraram nas retinas dos olhos verdes. Alguma coisa iluminavam – e não era o ambiente. Pensou nisso, pensou nos livros que descansavam bem ao lado, deu uma vontade de chorar, mas não chorou. Dormiu feito anjo cansado. Acordou na madrugada e tudo tinha voltado ao normal. Conseguiu distinguir na escuridão as duas lâmpadas no teto do quarto. Nas acendeu as luzes. Olhou a mesa onde tudo começou, algumas horas antes. O cachorro dormia em outro cômodo da casa. O resto do pão e do queijo estavam frios, mas descansavam em cima da pia de aço frio na cozinha. A alma estava quente. A vida voltara ao normal.

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