8:15Philip Roth

Publicado hoje no jornal Gazeta do Povo:

Homem incomum
O Caderno G Ideias aborda a obra do autor americano considerado por muitos o maior entre os vivos, que trata de homens massacrados pela História, pelo sexo e pelo tempo

por Marcio Renato dos Santos e Irinêo Baptista Netto
 
Philip Roth é o único escritor que teve sua obra publicada pela Library of America (Biblioteca da América) ainda em vida. Ao lado de dezenas de outros nomes que formam a literatura dos Estados Unidos, de Herman Melville a William Faulkner, o autor de Homem Comum terá toda a sua bibliografia editada em papel especial (que não oxida) e sua obra jamais ficará fora de catálogo – um dos compromissos da organização sem fins lucrativos fundada em 1979 e mantida com o dinheiro do National Endowment for the Humanities (órgão do governo americano) e pela Fundação Ford.
A literatura de Philip Roth, hoje com 76 anos, não envelhece. Ele já escreveu três dezenas de livros; o 30.º, A Humilhação, sai no Brasil em março no ano que vem, pela Companhia das Letras. Nemesis, o 31.º, está em finalização.
A capacidade de fabulação de Roth é imensa, e uma das virtudes do escritor é mencionada pelo escritor Ronaldo Bressane (Céu de Lúcifer): “Ele (Roth) escreve cenas de sexo como ninguém, com detalhes, humor, realismo e classe.”
Falar, mais que isso, escrever sobre sexo é mais difícil do que se pode supor. É preciso elaborar cenas que funcionem e não descambem para a pornografia, para o pieguismo ou para a mera descrição relatorial. O Complexo de Portnoy, escrito sob a influência de Franz Kafka – de acordo com o próprio Roth –, é um exemplo disso (leia mais na página 2).
Quem leu apenas seus trabalhos mais recentes, como Fantasma Sai de Cena ou Indignação, não faz ideia do quanto ele sabe ser engraçado – característica que aparece em seus primeiros romances, When She Was Good (1967) e Letting Go (1962), inéditos no Brasil.
Ritmo
Bernardo Ajzenberg, autor de Olhos Secos, chama a atenção para outros aspectos presentes na literatura de Roth. “A liberdade na escolha e no desenvolvimento de seus temas, sempre provocantes e capazes de tocar fundo na sensibilidade dos leitores, e a riqueza estrutural das frases que ele elabora, com um ritmo sedutor e imagens diferenciadas”, diz Ajzenberg.
Usando alter egos famosos (Nathan Zuckerman, David Kepesh e um Philip Roth ficcional), o escritor já tratou de amor, morte, paixões, inveja, decadência física e moral etc.
O interessante é que os protagonistas de Roth envelheceram com ele. Fantasma Sai de Cena deve ser a coda para a série de Zuckerman. O Animal Agonizante tem a mesma função nos livros sobre David Kepesh.
A história recente norte-americana também está incoporada em sua prosa, como pano de fundo, cenário, contexto geral da ficção elaborada por um autor que parece mesmo atento a tudo o que se passa na vida de um homem.
Conflitos armados, por exemplo. A Guerra Fria está no enredo de Casei Com Um Comunista (um parágrafo deste romance arrasa boa parte da ficção que costuma ocupar as listas dos mais vendidos). A Segunda Guerra Mundial embala a distopia de Complô Contra a América. A Guerra da Coreia é elemento central do fantástico Indignação, todo construído em torno da frase final.
“Roth consegue ir do particular para o geral com uma sutileza enorme. A História se mescla com as individualidades de uma forma natural. Os temas mais amplos interferem nas coisas minúsculas e vice-versa, que é como ocorre na vida real”, analisa Ajzenberg.
O escritor gaúcho Daniel Galera (Mãos de Cavalo), fala que Roth parece incapaz de escrever mal e tem uma série de argumentos que o credenciam não apenas como um escritor de primeira qualidade, mas também como o maior americano vivo.
“Em primeiro lugar, pela prosa vigorosa, elegante, enérgica. Em segundo, porque é um escritor sem medo de reconhecer e até defender fraquezas e instintos essenciais do homem, na medida em que fazem parte de nossas vidas e não podem ser negados ou desprezados. Em terceiro, porque aborda com muita sofisticação e coragem o problema dos limites entre a literatura e a vida, entre a ficção e a realidade”, diz Galera.
Flip
Na próxima quinta-feira, Flavio Moura, curador da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), terá um encontro com o agente literário de Roth. Moura, a exemplo do que postou no blog do evento, sabe que as chances de Roth participar do evento no litoral fluminense são mínimas, mas, como ele mesmo diz: “perguntar (no caso, convidar) não ofende e a insistência faz parte do ofício”.
Nos últimos cinco anos, Roth escreve e publica livros cada vez mais breves – seus romances foram de quase 600 páginas para menos de 200. Fato: quanto mais sintético é o livro, maior é a intensidade da história narrada.
“Eu quero que ele morra logo para parar de nos humilhar com uma obra-prima por ano”, diz Ronaldo Bressane.
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Aos 40, Complexo de Portnoy segue obsceno e engraçado
Romance que fez de Roth um escritor milionário é uma confissão dos problemas e perversões do personagem-título ao seu analista

por Irinêo Baptista Netto

Philip Roth ganhou o Prêmio Nacional do Livro por sua estreia, Adeus, Columbus (1959). Mal-e-mal comparando, é o equivalente americano do Jabuti no Brasil, dado pela Câmara Brasileira do Livro. O escritor tinha apenas 26 anos.
Uma década e dois romances depois, ele publicou O Complexo de Portnoy, colocou a obscenidade na mesa e ficou milionário. A narrativa é uma confissão verborrágica de Alexander Portnoy, um judeu americano que tem dificuldades para lidar com seus impulsos sexuais. Quanto mais os reprime, mais perversos eles se tornam. Portnoy conta suas desventuras e obsessões para um analista, o doutor Spielvogel.
Agora, o livro faz 40 anos e, se não choca da mesma forma que fez nos anos da contracultura, continua sendo um romance arrebatador. Uma viagem pelas neuroses de um adulto que ainda não se livrou das influências da mãe e do pai. Incapaz de assumir um compromisso com qualquer mulher, ele pula de cama em cama tentando – ou fingindo que tenta – encontrar uma que dê conta de seus desejos e também seja uma garota de família, do tipo que se pode apresentar para os pais num almoço de domingo.
Na ficção, Portnoy acabou virando nome de um “quadro mórbido caracterizado por fortes impulsos éticos e altruísticos em constante conflito com anseios sexuais extremos, muitas vezes de natureza pervertida”. Já se falou tanto da pornografia contida no livro que fica difícil corresponder as expectativas de um leitor de hoje. Dá para dizer, por exemplo, que qualquer coisa do Marquês de Sade (século 18) ou de Georges Bataille (na primeira metade do 20) é muito mais picante que o texto de Roth. Mas ele tem seus momentos.
A questão para a época não foi apenas o erotismo – embora ele tenha ajudado e vender o livro. “O tema de Portnoy, como convém, era a rejeição do dever e a tentativa determinada e fútil do herói de se libertar da responsabilidade e da culpa”, escreveu Michiko Kakutani, do New York Times. A crítica diz que o método de Roth envolve usar a própria vida e a carreira como assuntos, reinventando ambas e dando a elas a dimensão de um mito literário.
“Estava à procura de coisas que cristalizassem uma experiência vaga e nevoenta. Acho que escrever é como representar, fingir. Por que fiz Zuckerman (protagonista de vários livros do autor, começando por Diário de uma Ilusão) ter minha idade? Porque sei o que significa ser desta geração. Por que fazer com que Zuckerma