19:23HORÓSCOPO

por Zé da Silva

Gêmeos

Cansou e foi procurar o cantinho na praia de pescadores. Achou. Bem longe da megalópole onde nasceu, cresceu e começou a envelhecer com as marcas de todo tipo de poluição. O dinheirinho juntado, mais a aposentadoria minguada dariam para o gasto. O vilarejo não tinha rua, a casa era casebre de madeira fincada na areia da praia. Três camisetas e duas bermudas não precisavam de um guarda-roupa. Jogou um retângulo de espuma no chão e tinha a cama dos deuses. Não precisa se cobrir. Fazia calor até no frio. Comia um peixinho. Tomava banho de mar. Caminhava ao nascer e ao por do sol. Conversava um pouco com os nativos, mas não gostava de ver banguelas nem de gente que bebia muito cedo. Mas, estava lá. Leu os livros que levou numa enorme mala, perdeu alguns quilos, não escreveu uma linha como imaginava. Não tinha notícia do que acontecia fora dali. Não queria saber de política, economia, nada. Os trocados que despositavam em sua conta, ele tirava numa lotérica a muitos quilômetros dali. Mas só de vez em quando. Deixou o que restava de cabelo crescer. A barba também. Alguns anos se passaram. Mulher, nem sinal. Fazia sexo seguro quando lembrava. Mas foi se sentindo vazio. E o nó na garganta se juntou ao buraco da alma. Um dia sonhou com um dia de cão no trânsito. Acordou e voltou para a grande cidade. Foi para uma grande avenida congestionada. Aspirou com toda força dos pulmões o ar empestiado. Era vício, pensou. E nunca mais saiu da recaída.

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