15:13CAFÉ

Gosto de tomar café às três da tarde.
Você  pode achar fora de moda
eu tomar café às três da tarde
com uma religiosidade que remonta a minha mãe,
minha avó, minhas tias e todas as mulheres
que me cobriram de lãs e flanelas
naquelas noites de gelo
quando eu ainda não definira
as coisas e as cores do mundo.
Elas sentavam-se à mesa,
derrubavam migalhas de pão pelo chão,
trocavam flores murchas nos vasinhos
de porcelana vagabunda.
Tenho isso comigo,
essas amarras de aço,
correntes de luz.
Eu me imagino igual a uma casa sombria
de longos corredores,
agitada por fantasmas que não escolhem dia nem hora
para zanzar pelos seus cômodos.
Esses espíritos inquietos buscamlampiões e velas,
têm sede das águas em moringas,
buscam baús, prateleiras, oratórios,
anseiam por ouvir tropeis de cavalos
para sempre silenciados.
Órfãos de vida, meus pobres fantasmas.
Tomo café, sim, às três da tarde,
com saudade das vozes femininas,
do locutor da rádio, dos apitos das fábricas,
dos cantores esquecidos.
Daquele tempo ainda guardo um bule, uma canequinha,
três xícaras desbeiçadas e uma tigela que uso
para bater massa de bolinhos
que frito nos dias de frio e chuva.
Cansei de tanto falar…
Você  que implica com meu café
por que não vai ao quintal sentir o cheiro
das mangas que agonizam no chão, apodrecidas?

por Zeca Corrêa Leite 

*poema extraído do livro “Quinhentas Vozes”

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