18:10Horóscopo

por Zé da Silva

Touro

Dois anos depois voltou. A chave girou, ele abriu a porta e viu a boneca sentada na poltrona. Impassível. Tinha um nome, homenagem à avó materna. Falou com ela. Tudo bem, ela respondeu com os olhos. Havia poeira em todos os cantos. Pastas abertas e espalhadas pelo chão. Foi a correria para resgatar velhos documentos. Abriu a janela e o ar filtrado pela copa da araucária que crescera bastante, entrou e deu vida a tudo. Aos quadros, livros, discos. Dois pacotes de leite permaneciam na geladeira como se tivessem sido comprados naquela manhã. O sol explodia contra uma onda no mar na foto em preto e branco emoldurada. A planta ressecada demonstrava ter lutado bravamente contra a morte. Tudo estava no lugar. As tralhas que carregava sempre e não sabia por quê. O que restou das roupas, os bonés, os chapéus. Foi embora porque precisava. Voltou pelo mesmo motivo. Era um cismado. Como aprendera com o pai. O cano que servia como chuveiro lhe forneceu água gelada. Ele vestiu uma cueca de algodão e perfumou a si e ao ambiente. Tirou o aspirador de uma caixa de papelão e o barulho revelou ao mundo sua presença naquele apartamento minúsculo, mas do tamanho do seu mundo.

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