7:37Helmuth Wagner, em filme

Da Gazeta do Povo, em reportagem de Annalice Del Vecchio:

As milhares de fotografias feitas por Helmuth Erich Wagner (1924-1988) ao longo de meia década de produção são, por si só, mais do que suficientes para contar a história do importante fotógrafo de Canoinhas, Santa Catarina, que viveu em Curitiba desde a infância.

Sabendo disso, sua filha, a diretora Ingrid Wagner, e o cineasta Fernando Severo não viram melhor maneira de falar sobre ele no documentário Helmuth Wagner – A Alma da Imagem, que será lançado hoje, às 16 horas, encerrando a primeira sessão da Mostra Paranaense do 4.º Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino, que se realiza de 5 a 11 de outubro.

A ideia de realizar um filme sobre o pai já era algo acalentado há muito tempo pelos irmãos Ingrid, Elizabeth, Rosane e Helmuth Jr., que nas décadas de 80 e 90 produziram animações premiadas como, por exemplo, os curtas Respeitável Público (1987) e A Flor (1991) . “Todo o material já estava ali, só faltava fazer o filme”, diz Ingrid, que encabeçou o projeto, do qual participaram todos com maior ou menor envolvimento.

Ela propôs a codireção ao amigo Fernando Severo, conhecido desde os tempos em que frequentavam a Cinemateca de Curitiba, dirigida por Valêncio Xavier, como forma de brecar seu envolvimento emocional. De fato, seria preciso desprendimento para transformar seis horas de entrevistas e mais de mil fotografias em apenas 50 minutos de filme.

Para Ingrid, que, como os irmãos, aprendeu a fazer contato colocando plantinhas sobre o papel fotográfico para que a luz do sol marcasse o seu contorno, não seria difícil dar ao filme uma atmosfera poética semelhante às fotografias do pai. “Procuramos retratar não só o trabalho do fotógrafo, mas a alma do artista. Por que não se expressar assim, já que tivemos a influência dele?”, diz a artista multimídia, que hoje se dedica principalmente às colagens.

Memórias de infância

Nos primeiros momentos do filme, a voz de Karla Fragoso narra a infância ao lado de Helmuth como se fosse uma das filhas. “Contamos nossa história pelas próprias fotos que ele tirou e do modo como a gente se sentia na época”, explica Ingrid. Como alguém poderia esquecer, tendo em mãos aqueles momentos tão bem registrados pelo pai, dos tempos em que fazia bolinhas de sabão soprando o caule do pé de abóbora? Ou do aroma forte do maracujá em flor? Ou da mágica que era ver um pequeno instante aprisionado para sempre no papel fotográfico?

Em seguida, a irmã de Helmuth, Relindes, relembra a história familiar. Por falta de recursos, Max (pai de Relindes e Helmuth) costumava fabricar seus próprios equipamentos fotográficos e usava o quarto do filho como câmera escura. Helmuth faria o mesmo mais tarde.

Ingrid se impressionou com os depoimentos que obteve. “Não sabia dessa admiração tão grande por ele”, conta. Alternam-se aos trechos de uma entrevista concedida pelo próprio Helmuth, em 1988, a Cid Destefani, autor da coluna Nostalgia, da Gazeta do Povo, conversas com membros do Círculo dos Marumbinistas, do qual participou ativamente, como por exemplo Enrich “Vitamina” Schmidlin. Do pico mais alto do Paraná, o Marumby, o fotógrafo que amava a natureza produziu algumas de suas mais belas imagens – retratadas no livro Serra do Mar.

Helmuth era um dos mais ativos membros do Fotoclube do Paraná, o mais antigo do Brasil, criado em 1938. Ali, ao lado de amigos como Carlos Ravazzani e Carlos Renato Fer­­nandes, que dão depoimentos no filme, produziu suas fotos mais artísticas e experimentais, que lhe renderam prêmios em salões de todo o país. “Ele era um esteta, estava na vanguarda de seu tempo. Quando focaliza um grampo, um parafuso, um detalhe qualquer, estava lançando um tipo de fotografia que hoje é muito comum, mas que quase ninguém fazia”, conta Vitamina.

Sua técnica também era algo que impressionava o fotógrafo João Urban. “A qualidade de suas cópias ninguém tinha. Suas fotos tinham o preto, o branco, mas também o cinza, algo que a gente não conseguia fazer”, diz ele, que trabalhou na Fototécnica, empresa de Helmuth e de José Kalkbrenner, que produzia fotodocumentários institucionais e fotografia publicitária.

Autor dos três famosos álbuns Serra do Mar, Sete Quedas e Ilha do Mel, publicados com apoio do então secretário da Cultura René Ariel Dotti, que participa do filme, Helmuth se dedicou principalmente à fotografia da natureza, mas também registrou o cotidiano de Curitiba, a cultura paranaense e dedicou-se à experimentação. Ingrid conta que pouco antes de morrer, de câncer, aos 64 anos, disse aos filhos e à esposa, Edith Pitz Wagner, que conheceu em uma excursão ao Marumby: “Se tivesse que fazer tudo de novo, faria tudo exatamente igual”.

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Saiba mais sobre Helmuth Wagner

- Nascido em Canoinhas (SC) e radicado em Curitiba desde a infância, Helmuth Wagner (1924-1988) deixou um importante legado fotográfico sobre a natureza, a cultura e o povo do Paraná.

- É um dos cinco fotógrafos paranaenses cujas obras foram escolhidas no ano passado para representar a produção contemporânea brasileira na Coleção Pirelli/Masp de Fotografia.

- A curadora da mostra, Anna Carboncini, apontou na época como grande qualidade o experimentalismo transgressor do fotógrafo autodidata, que dirigiu por 14 anos o Foto Clube do Paraná.

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Serviço

Helmuth Wagner – Alma da Imagem. Estreia no dia 5, às 16 horas, no Auditório Poty Lazzarotto do Museu Oscar Niemeyer (R. Mal. Hermes, 999), (41) 3551-1431

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