19:46HORÓSCOPO

por Zé da Silva

Capricórnio

Ela entrou na sala de aula do subúrbio e, naquela noite, não ensinou os rudimentos do inglês. Jogou a enorme bolsa que carregava sobre a mesa, olhou para todos aqueles alunos trajando aventais brancos e disparou uma saraivada de pancadas para tentar acordar a meninada do terceiro ano do segundo grau. Atacou de cultura, porque era assim que, achava, as portas do mundo se abririam para que todas aquelas quarenta almas saíssem do gueto do obscurantismo. Literatura, teatro, cinema, de tudo ela falou um pouco. Outros mundos, outros mundos, não apenas aquele de se tentar ser um profissional preso às pesadas bitolas herdadas e carregadas sem se saber como e por quê. Um dos meninos, cabelos longos, cavanhaque batendo no peito, conseguiu ouvir. No outro dia andou mais de uma hora de ônibus e entrou no cinema que diziam de arte. Teorema, de Pier Paolo Pasolini caiu-lhe na cabeça como algo tão estranho quanto a visita de um marciano. Mas a pancada lhe fez bem. Ele ficou tonto para toda a vida e sempre agradece nas preces a professora que desapareceu no mundo e lhe entrou na vida.

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