8:0415 anos só por hoje

A compulsão pela vida é o que faz quem teve compulsão pelas drogas ser feliz. Descobrir que é possível sobreviver sem se entorpecer para aplacar a dor da alma é um milagre possível. A drogadição é doença, mas até quem padece dela tem preconceito. Escrever e falar abertamente a respeito é um dos caminhos que encontrei para me manter sóbrio – só por hoje. O outros são o voluntariado na clínica onde fui internado pela terceira vez e, principalmente, a terapia que faço desde que entrei no consultório da psicóloga Marcia Menina, depois no do psiquiatra Valter Abelardino e agora com o também psiquiatra Antonio Jacobsen, que me fez ver a importância de tomar sagradamente meu remédio estabilizador de humor. Há exatos 15 anos o jornalista Marcio Varela atendeu a um telefonema meu, num sábado de manhã, e foi me buscar num quarto do hotel Hara, na avenida Iguaçu. Ele pediu para que eu me afastasse da janela. Tinha medo de que eu me jogasse de lá. Eu não pensava nisso. Na verdade, suicídio lento eu estava cometendo desde que tomei o primeiro gole de cerveja aos 17 anos. Estava com 40, tinha parado de beber em 1990 mas substituí o líquido pelo sólido em forma de pó. Quando Varela me levou para a clínica Quinta do Sol, eu estava me drogando havia quatro dias, na forma líquida, ou seja, injetando cocaína principalmente no braço esquerdo, exatamente através de uma ferida que me deixou uma cicatriz que hoje eu olho com muito carinho, pois me faz não esquecer. A dependência de qualquer droga é uma doença sorrateira. Se não houver atenção, cuidados permanentes, principalmente com a alma, somos traídos por nós mesmos. Afastar-se das terapias, dos grupos de mútua ajuda como o AA e o NA, é caminho certo para a recaída. Foi assim que aconteceu comigo por duas vezes, mesmo depois de períodos relativamente longos de abstinência. Mas o jogo não é com a droga, não depende apenas de força de vontade. O jogo é com a gente mesmo. Na caminhada descobre-se que drogar-se é o sintoma do que está dentro da alma – e os drogaditos são sensíveis demais, sentem todas as dores do mundo, e têm um medo danado de olhar para os demônios que os afligem, mesmo sem saber que cara têm. Estes bichos são criados por nós mesmos, são inflados, pintados nas cores mais absurdas, mesmo porque nós não os conhecemos. E jogamos a culpa em quem está próximo, quem nos atura, quem fazemos sofrer; e nas situações da vida, seja ela o trabalho que não é o que queremos, a profissão,  as finanças, etc. Esquecemos o principal, porque estamos vivendo num universo paralelo. Esquecemos a vida, na sua normalidade, na sua beleza, na sua feiura, na felicidade que nos traz pelas coisas mais simples, nas tristezas que passamos porque é assim mesmo. Acordar e descobrir que se está vivo, que se pode produzir, que se pode amar, que se pode respirar, sentir, é o grande barato vivido por quem esteve durante muito no pântano das trevas achando que só sairia dali morto. Quantos milhões de drogados estão sofrendo agora? Na rua, na favela, nas mansões, o inferno é o mesmo, porque é aquele próprio. Na busca do prazer que um dia se sentiu, toma-se mais uma dose que só faz aumentar a distância do real, do normal, que é de Deus, seja lá como cada um entenda isso. Quem tem a felicidade de recomeçar a caminhar na vida sem as drogas pode ter certeza de ser um privilegiado. Porque poucas pessoas viveram ou viverão nossa experiência. Que é positiva, porque podemos comparar. Não há cura para esta doença. Há controle. Quinze anos significam a mesma coisa que um milionésimo de segundo de sobriedade. Porque é a descoberta de que é possível. Nosso controle é não se drogar. E buscar se conhecer. Só por hoje.

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