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ze-luiz

José Antonio da Silva (com Astor)- Foto de Ricardo Silva

Era mais um Zé que gostava do Rei. Um dia me levou para ver “Isto é Pelé” no cine Dom Bosco, que ficava atrás de nossa casa. Meia-água de fundo de quintal. A única vez que foi comigo ao cinema. Na vida, um dia soube, também foi ver Os Pássaros. Sozinho. Porque era cismado que só. Nunca ergueu a mão para os filhos. Nem abriu a boca, pois não era de conversa nem de nhenhenhém.  Trabalhava. Sempre. Operário, garçom, pequeno comerciante. O corpo era seco e comprido. Os braços, os dedos das mãos e dos pés, longos. Honesto. Achava todo político ladrão. Sabia ler e escrever. Amava sua terra. Voltou para lá quando deu na telha. Assim como tinha descido para o Rio de Janeiro e ido no início dos 50 para São Paulo. Bonitão. Rosto de traços fortes, olhos azuis claríssimos. Sofria em silêncio por não saber de onde vinha a dor. Bebeu até parar de andar. Mas não incomodava. E não queria ser incomodado. Amava do seu jeito, sem demonstrar. Chorou feito criança a morte da amada, Zefinha, que, achava, partiria depois dele. Sabia de tudo. Não sabia externar. Talvez porque não gostava de ser cobrado. Por isso, era um anjo para fora do portão e com os netos. Os filhos sempre estiveram com ele, mesmo quando estavam perdidos na vida. Porque sabiam que ele fez o que podia – e o que ele podia foi muito. Eles se salvaram e isso ele presenciou. Que mais na vida eles poderiam lhe oferecer? Sempre houve amor, por isso ficaram juntos. Isso este ele passou. Sem declarações, sem gestos, sem demonstrações. Era o jeito deste Zé, pai do Ricardo e deste Zé aqui.

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