Uma ideia sobre “PARA NUNCA ESQUECER

  1. jango

    Norma Jean, depois Marilyn, mereceu um belíssimo poema que cabe lembrar aqui nesta homenagem:

    Oração por Marilyn Monroe

    Ernesto Cardenal (sacerdote e poeta nicaraguense)

    Tradução Cleto de Assis

    Senhor,

    recebe esta moça conhecida em toda a terra com o nome de
    Marilyn Monroe
    ainda que esse não era seu verdadeiro nome
    (mas Tu conheces seu verdadeiro nome, o da pequena órfã

    violada aos nove anos
    e a empregadinha de loja que aos 16 quis se matar)
    e agora se apresenta ante Ti sem nenhuma maquiagem
    sem seu Assessor de Imprensa
    sem fotógrafos e sem dar autógrafos
    sozinha como um astronauta frente à noite espacial.

    Ela sonhou, quando criança, que estava desnuda em uma igreja

    (segundo conta o Time)
    diante de uma multidão prostrada, com as cabeças no solo
    e tinha que caminhar na ponta dos pés para não pisar as cabeças.
    Tu conheces nossos sonhos melhor que os psiquiatras.
    Igreja, casa, gruta, são a segurança do seio materno,
    mas também mais que isso…
    As cabeças são os admiradores, é claro
    (a massa de cabeças na obscuridade sob o jorro de luz).
    Mas o templo não são os estúdios da 20th Century-Fox.
    O templo – de mármore e ouro – é o templo de seu corpo
    em que está o Filho do Homem com um látego na mão
    expulsando os mercadores da 20th Century-Fox
    que fizeram de Tua casa de oração um covil de ladrões.

    Senhor,
    neste mundo contaminado de pecados e radioatividade
    Tu não culparás tão somente uma empregadinha de loja.
    Que como toda empregadinha de loja sonhou ser estrela de cinema.
    E seu sonho foi realidade (mas como a realidade do tecnicolor).
    Ela não fez senão atuar segundo o roteiro que lhe demos
    – o de nossas próprias vidas – e era um script absurdo.

    Perdoa-a, Senhor, e perdoe-nos a nós
    por nossa 20th Century
    por esta Colossal Super-Produção em que todos trabalhamos.
    Ela tinha fome de amor e lhe oferecemos tranqüilizantes
    para a tristeza de não ser santos
    foi-lhe recomendada a Psicanálise.

    Recorda, Senhor, seu crescente pavor à câmera
    e o ódio à maquilagem – insistindo em maquilar-se em cada cena –
    e como se foi fazendo maior o horror
    e maior a impontualidade aos estúdios.

    Como toda empregadinha de loja
    sonhou ser estrela de cinema.
    E sua vida foi irreal como um sonho que um psiquiatra interpreta e arquiva.

    Seus romances foram um beijo com os olhos fechados.
    Quando se abrem os olhos,
    se descobre que foi sob refletores

    e apagam os refletores!
    e desmontam as duas paredes do aposento (era um set cinematográfico)
    enquanto o Diretor se distancia com sua caderneta de anotações

    porque a cena já foi tomada.
    Ou como uma viagem em iate, um beijo em Singapura, um baile no Rio
    a recepção na mansão do Duque e da Duquesa de Windsor
    vistos na salinha do apartamento miserável.

    O filme terminou sem o beijo final.
    Encontraram-na morta em sua cama com a mão no telefone.
    E os detetives não souberam a quem ia chamar.
    Foi como alguém que discou o número da única voz amiga
    e ouve somente a voz de uma gravação que lhe diz: WRONG NUMBER.
    Ou como alguém que, ferido por gangsters,
    estica a mão a um telefone desconectado.

    Senhor,
    quem quer que tenha sido quem ela ia chamar
    e não chamou (e talvez era ninguém
    ou era Alguém cujo número não está no guia telefônico de Los Angeles),
    atende Tu o telefone!

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