9:58Horóscopo

por Osman Gadoso

Touro

A camisa florida desapareceu à esquerda no final do corredor. Por ali se foi o irmão que ao mesmo tempo é filho, pai e mãe. No reflexo do vidro do portão de embarque, se viu como está no mundo: só e Deus. Durante um tempo eles ficaram tão juntos que um tio gozador escrachou: cara de um, ..u do outro. Era a mesma pessoa que, num passado não muito distante, viveu separado, mesmo junto. Sangue do meu sangue, brincaram feito meninos em gangorra no parque. Galeão Cumbica anunciando “no ar”, “que se piquem” e, agora, ali, na porta do avião que vai levar um deles para milhares de quilômetros dali, a materialização do bordão “aí eu choro”. Sobreviventes da pobreza, fugitivos do gueto da indigência de onde nunca saíram todos aqueles que formaram a imensa árvore genealógica a cobrir o país e de onde surgiram como frutos num subúrbio cinza. Se afogaram nos líquidos que entorpecem para tentar arrancar de dentro a dor da existência. Nunca conseguiram, mas acharam na luz traduzida em arte, o alívio que os fez continuar. Do que sobrou do massacre silencioso da lida, se ergueram puxando os próprios cabelos da alma. Se parecem até na reação violenta a quem tenta entrar oferecendo ajuda na arte de viver. No fio da lâmina sobre a qual vivem, felizes, o medo do desequilíbrio com um empurrão mesmo bem intencionado, é imenso. O coração dos dois é imenso, mas o medo deles é muito maior. Consguem construir armaduras à prova de tudo. Choram principalmente quando não compreendidos. Eles que nem se compreendem. Mas um entende o outro. Já é muito na estrada que percorrem. A camisa florida voou. Lágrimas rolaram por aí. Faz sol.

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