8:11A mentira abominável

por Janer Cristaldo (http://cristaldo.blogspot.com)

Em suma, a mentira faz parte do ser humano. Está na guerra, na diplomacia e na política, onde reina soberana. Pode alguém crer no que diz um político? Só se for da turma do “me engana que eu gosto”. Vou mais longe: sem mentira não há política, pelo menos neste regime que chamamos de democrático. Candidato algum se elege sem mentir. A cada platéia, tem de dizer não verdades, mas o que lhe rende votos. Mentira é inerente à política e por tal razão do universo político só quero distância.

É parte constitutiva das religiões e filosofias, dos Estados e ideologias. Está nos livros – e como! – e jornais, no rádio e na televisão. E particularmente na publicidade. Todos estamos rodeados de mentiras. Raros são aqueles que conseguem filtrá-las na massa de informação que nos submerge e, mesmo assim, mais dia menos dia, arriscam cair em uma delas.

Mas prometi falar da mentira repulsiva, daquela que considero a mais vil das mentiras. É a que permeia as relações entre casais. O que melhor a atesta é o uso de preservativos entre matrimônios constituídos. Se confiança fosse permissível entre ambos, não haveria necessidade de proteção alguma. Mas não é permissível. Ao longo de minhas décadas, conheci alguns maridos que jamais mentiram nem mentiriam a suas mulheres. Dá pra contar nos dedos e sobra um monte de dedos. Fora estes, a mentira é o pasto cotidiano de todos os casais. Os machos sempre se sentiram à vontade na condição de polígamos e se sentem diminuídos se não o são. Cientes desta idiossincrasia masculina, algumas mulheres se julgaram no direito – e justo direito, diria eu – de também pular a cerca.

    No recesso do lar, como diriam os juristas, tudo é felicidade e harmonia. Para todos os efeitos, ninguém trai ninguém. Jamais consegui entender como alguém consegue dormir sob o mesmo teto, na mesma cama, lado a lado, todas as noites, com alguém em quem não pode confiar. Eu teria medo. Daí essa enxurrada de crimes passionais, separações e divórcios – algumas traumáticas e dolorosas e outras mais tranqüilas, conforme o grau de civilidade do casal – que constituem a normalidade de nossos dias. Brigas por bens, por guarda de filhos e cachorros, estabelecimento de horários de visitas, dilacerações das crianças. E muito lucro para advogados. Tudo seria bem mais simples para todos se o marido pudesse contar à mulher suas outras aventuras, e vice-versa. Não é o que se vê. O que vemos são famílias destroçadas pela mentira quotidiana.

    Sempre dou uma olhadela na crônica policial dos jornais. Me fascinam – horresco referens – ler notícias de velhinhas, que após cinqüenta ou mais anos de casamento, fuzilam o marido enquanto ele dorme. Que faz uma anciã agir assim? É que ela descobriu ter sido enganada uma vida inteira e agora não há mais chance de começar outra. Se lhe foi roubada a vida, paga na mesma moeda.

    Assisti a uma boa dezena destas tragédias, bem próximas a mim. Em Porto Alegre, tive um colega de jornal que deu cinco tiros em sua mulher. Motivo? Ela punha açúcar demais na caipirinha. Pelo menos foi o que alegou. Claro que o problema não era açúcar nem caipirinha, mas um monstro que vinha crescendo dentro dele, alimentado pela mentira e pelos ciúmes. Permaneceu em liberdade após matar a coitada. Perambulava pelas ruas com um ar de cão arrependido, que implora com olhos tristes perdão ao mundo por alguma cachorrada. Certo dia, sentou em minha mesa e me estendeu a mão. Recuei a minha. “Que foi que eu te fiz?” – me perguntou. “Pra mim não fizeste nada” – respondi. E levantei-me. Não consigo apertar uma mão que fuzilou uma mulher.

    Um outro colega da mesma Caldas Júnior, jornalista de renome e aparentado com os proprietários da empresa, arrancou a calota craniana com um tiro de escopeta 12, cano serrado, de uma menina que namorava em um carro frente à sua casa. O jornalista teve azar. Se fosse uma empregadinha, acabaria sendo acusada de alguma coisa. Ocorre que era filha de um jurista, também renomado, de Porto Alegre. Até hoje continuam sendo um mistério as motivações do jornalista. Houve quem aventasse – versão na qual não confio muito – que o namorado da moça era um caso seu. Vá lá se saber! Cumpriu uns dez anos de prisão, creio, e hoje circula na cidade e na imprensa como se nada houvesse acontecido. Há alguns anos, foi entrevistado pelo Jô Soares. Ou seja, pagou para ser entrevistado. Claro que não falaram do episódio.

    Tive também um conhecido de mesa de bar naqueles dias. Advogado bem sucedido, andava sempre armado. De minha parte, abomino gente armada. Certo dia, após algum álcool, começou a gabar-se de viver um casamento liberal. “Tenho quantas mulheres eu quero. Minha mulher sabe disso e não reclama”. Eu, jovem universitário que começava a observar o mundo, aplaudi sua decisão. “Maravilha! – disse -. Suponho que dás a ela o mesmo direito”.

    Melhor tivesse ficado calado. O causídico foi se irritando aos poucos, cada vez mais aceleradamente, puxou o revólver e o pôs na mesa, o cano virado para mim. “Como podes aventar isso, nesta sociedade imunda, que jamais aceitaria isto?” Pelo jeito, minha modesta intervenção cortara fundo. A sociedade é que era imunda. Ele não. Retirei meu time de campo. Naqueles dias, eu rabiscava minhas primeiras linhas. Elaborei então um conto, calcado no advogado “liberal”. Meu conto terminava com ele matando a mulher e se suicidando. Nunca o publiquei e deve estar esquecido em meus baús. Alguns anos depois, recebi a notícia: ele matara a mulher e acabara se suicidando. Fui profeta e não sabia. Enfim, a humanidade não perdeu grande coisa.

    Falar nisso, aqui em São Paulo temos um ex-editor do Estadão, homem culto por ofício, que permanece livre como um passarinho após ter matado sua companheira pelas costas. Também foi meu colega de redação. Existirá ainda alguém no jornal que consiga apertar-lhe a mão? Se existe, eu não conseguiria apertar a mão dele. É cúmplice.

    Tive muitas amigas e jamais menti a nenhuma delas. Nunca ofereci fidelidade nem jamais a exigi. Todas sabiam de todas. Sem querer invadir a privacidade de ninguém, sempre procuro ter uma idéia do perfil das pessoas com quem elas andam. É uma questão de precaução. Nunca me agradou a idéia de estar um dia sentado tranqüilamente em um bar e receber, de repente, um tiro na testa.

    A mulher avançou. O macho ficou parado no tempo. Incompetente, reage com violência. Mas pretendia falar da mais vil das mentiras. Creio que já falei.

Uma ideia sobre “A mentira abominável

  1. cezar

    Para quem quiser se aprofundar no assunto sugiro o livro “origens da família, da propriedade privada e do estado”.

    Este livro traz os estudos de Morgan (antropólogo que viveu durante muitos anos interagindo e estudando sociedades não influenciadas pela cultura patriarcalista greco-romana), relatando como a humanidade, em razão do surgimento da propriedade e a conseqüente necessidade de transmiti-la por herança, desvirtuou a ordem familiar natural (matrialcal e poligâmica) para o modelo (patriarcal e monogâmico) com as conseqüências inafastáveis das mudanças culturais que não respeitam os limites e orientações naturais do ser humano, causa da maioria de nossas repressões e complexos.

    Não que, necessariamente, devamos desprezar a convivência monogâmica preconizada (mas pouco praticada) pela humanidade, desde que se tornou “civilizada”, mas entender a natural inclinação humana para a bigamia (tanto masculina como feminina), e salutar para se evitar a maioria dos traumas relatados no texto.

    P.s. Particularmente, ao ler a obra mencionada, me ative aos estudos de Morgan (primeira metade do livro – estudos que acredito não tenham sido publicados separadamente) mas que foram utilizadas, na obra, como pressupostos basilares da teoria de Engels sobre o socialismo utópico, teoria que se não for convenientemente separada, acaba por macular os brilhantes estudos de Morgan (razão deste post-scriptum).

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